sexta-feira, 4 de novembro de 2011

[Review] In Rainbows



por Ruth Queiroz


How come I end up where I started?

O verso/pergunta que abre o disco talvez defina a temática Radioheadiana do novo álbum, em outro momento se diria “Down is the New up”, todo fim é o começo. Sétimo e mais polêmico da banda, lançado em 10 de Outubro de 2007 em uma versão digital para download com a grande questão “o quanto você acha que vale”, em 3 de Dezembro do mesmo ano em uma caixa contendo dois CDs e dois discos de vinil .

Assim, com 15 Step, um som inusitado com pegada afrobeat (graças talvez, ao um ano que Jonny Greenwood ouviu apenas esse ritmo, segundo a Rolling Stone), com batidas lembrando um ritmo quase tribal, passando para um fantástica linha jazzie de baixo. Em letra original ele traria “friends forever, fifteen steps then a sheer drop” “amigos para sempre, quinze degraus então, numa gota transparente” o que facilmente nos remeteria a uma interpretação que nos levasse aos 15 anos da carreira, a um momento onde tudo fica claro, isso sabendo das tensões que a banda passou para que o álbum saísse! Mesmo a letra lançada “Fads of whatever” nos leva ao mesmo ponto. Letras e músicas irônicas, nenhuma linearidade em ambas, trazendo a canção mais dançante e instigadora ao movimento do álbum.

Bodysnatchers com riffs alucinantes de guitarras de Ed O’Brien, Jonny Greenwood e Thom Yorke, nuances que trazem na letra o “coma”, a tensão da reflexão de que nada pode ser mudado “I am trapped in this body and can’t get out”, a aceitação do “é assim que sou por mais que lute contra” a incerteza século 21, o continuar simplesmente e ver no que vai dar, o que por fim, vai ser a temática de todo álbum “a não certeza de nada, dúvida sempre, mais de um caminho possível”, e a grande verdade artística “I”m a Lie”assim, reafirmando as “contradições” que aparecerão por todo o álbum.

A belíssima e inebriante Nude traz um ambiente de musicais e grandes interpretações vocais com um Thom Yorke quase “piaffiano”, falsetes magníficos, contrastando com uma letra insinuante e sensualmente instigante, irônica e quase satiricamente aconselhando que as “grandes idéias nem sempre acontecem”. Os acordes refeitos por Colin Greenwood, mudando um pouco a versão anterior de “Big Ideas”
Reavivada com acordes simples de guitarra, bateria minimal, baixo dando um climão de fundo musical para enlace romântico.

Weird Fishes/Arpeggi, segundo a própria definição” O arpejo é uma forma de executar os tons de uma corda: em vez de tocá-los simultaneamente, são ouvidas em rápida sucessão, geralmente a mais grave aguda.” assim, Arpeggi é o som mais complexo do IR, as cordas arpejantes com bateria intensa e ritmada de Phil Selway. O baixo reproduzindo a tensão Junguiana da letra, essa, teria sido segundo Thom Yorke, um sonho que teve, de ser engolido por peixes estranhos. A parte dessa idéia, a letra traz a dúvida existencial “ o porquê e o para quê” ir ou ficar “Why should I stay here” seguir ou esperar “I’d be crazy not to follow, follow where you lead”, questão lindamente resolvida do entendimento que é necessário chegar ao fundo para conseguir emergir e sair “I’ll hit the botton and escape”. Talvez em sua complexidade, letra e música, seja a mais bela canção do disco, ao menos, a mais densa.

All I Need é a linda e hipnotizante canção que prima em suas linhas de contrabaixo pelo intenso, contrastando com o xilofone tilitante de Jonny Greenwood, dando uma sonoridade espacial , vocal grave demonstrando a densidade da letra desalentada, ao mesmo tempo que pode demonstrar a certeza de saber que o outro é “All I Need” , em momentos mostrando uma insignificância de ser “I'm an animal trapped in your hot car, I am all the days that you choose to ignore” ou “... just an insect trying to get out of the night”, o que culminará na dúvida em questão do álbum “S'all wrong...S'alright”.

Faust Arp, dois violões ilustrando de forma simples a bela canção que paradoxalmente ao conto lendário de Fausto “homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles” (esse será relembrado em Videotape) ao qual inevitavelmente nos remetíamos. A letra demonstra pequenos conflitos cotidianos que vão encerrar na questão maior “For no real reason... There's no real reason”, enfim, não é essa a questão. Delicada e simples, ela nos traz uma sensação de momento de parada para o deleite.

Reckoner parece ser o âmago da questão In Rainbows, como ela mesma diz em seus versos “fomos separados sobre ondulações da areia branca , sob o arco-íris” lembrando de que “na emocionante aventura da vida formaremos o arco-íris humano, sinal concreto de harmonia e equilíbrio.”, ensinamento budista. Os acordes repetidos e brandos, serenamente organizados, lembram um som monástico, o vocal em constante falsete, dá a ela um clima de quase meditação. Outra linda canção que parece, conseguiu o pretendido, tremenda paz e deleite ao ouvir.

Os acordes simples de House of Cards trazem com a letra, de volta a questão de que “não importa como isso vai começar ou terminar” , demonstrando no entanto, de relacionamento onde há os perigos da negação do existir, De novo, contrastando a simplicidade de som em clima relaxante, com uma pegada quase “bossa nova” encontramos a densidade instigante da letra, demonstrando toda uma tensão de uma estrutura prestes a ruir, entrar em colapso, a incerteza há de vir e o conflito sempre presente “
Jigsaw Falling in to Place e sua letra definindo a temática apresentada diz “there is nothing to explain” talvez, remetendo às tão faladas linhas ou não de guitarras trazidas até OK Computer, negadas em Kid A, retomadas de Amnesiac em diante, parece afirmar “o quebra cabeça se encaixa, antes que me tirem o microfone” é isso o que a banda quer dizer. Repleta de cordas desajustadas e distorcidas, um som empolgante em que ao ouvi-lo, dificilmente se consegue ficar parado.

“today has been the most perfect day i've ever seen” é essa a grande mensagem trazida na tristonha Videotape, com batidas desoladas ao piano, crescendo depois pra uma sonoridade que lembra fita VHS encerrada ao esquecimento, em repetidos sons de percussão lembrando um aparelho igualmente solitário, indo e voltando. A lembrança através das imagens, de momentos de conflito, tolhidos entre bem e mal “When mephistopholis is just beneath” constatando após “You are my centre when i spin away” mas que ainda assim, teria que haver uma despedida.

Essa canção encerra o álbum, novamente citando matéria da Rolling Stone, contrariando a vontade de Nigel Goldrich, produtor musical da banda, e de Thom Yorke, o que nos leva a pensar que toda a ambiência de fim trazida por ela, nada mais é para ambos, o começo de algo que faria desse fim “o mais perfeito dia já visto”.

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