quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Entrevista com os autores de «Ok Computer»

Radiohead
Como despistar o passado

«Kid A» chegou. As canções foram-se. Os Radiohead voltaram. Rodeados da intocável reputação de genialidade de que gozam nos dias de hoje. Mas, perante a passagem de testemunho de «OK Computer», pode ser que nem tudo esteja no devido lugar. Ed O'Brien, instrumentista do grupo -- o seu desempenho neste disco foi muito além da guitarra ritmo -- e responsável pelo diário da banda consultável na internet, falou connosco sobre o experimentalismo do novo disco e tudo aquilo que esteve implicado na sua gestação.

Passados três anos sobre a edição do brilhante e inesgotável «OK Computer» -- que, entre outras coisas, motivou na imprensa britânica o rótulo recorrente de «próximos Radiohead» --, a banda de Thom Yorke volta aos discos reformulando completamente a sua degustação, digestão e corporização do processo criativo. As fórmulas alteraram-se. A forma de confrontar o público com as transformações ocorridas também. Os concertos escasseiam, movem centenas de pessoas em busca de raros bilhetes e o culto das expectativas aumenta. O'Brien explica-nos a opção pelos concertos mais restritos e em menor número, que se prende com desejos relativos à «fome» de criar. «Não vamos fazer uma digressão de dezoito meses e depois gravar um álbum e fazer mais dezoito meses de digressão», esclarece.

«Vamos continuar sempre a trabalhar em estúdio. Porque quando se sai para digressão, embora seja fantástico, tem que se deixar de ser criativo e nós queremos gravar sempre mais e mais, queremos lançar um álbum todos os anos... Mas não vamos acabar com as digressões, não é um caso de "se não fazemos uma digressão agora não nos vamos expor nos próximos três anos". Podemos muito bem fazê-lo no ano seguinte, mas trata-se apenas de não podermos ser tudo para toda a gente constantemente. Nem sequer vamos para os Estados Unidos este ano, o que é frustrante, porque sempre foi um mercado enorme para nós». Quanto a Portugal, «passámos tempos incríveis aí.

Os concertos de aquecimento da última digressão no Garage, em Lisboa, foram simplesmente soberbos. Divertimo-nos muito em Lisboa; tocámos no Porto com os James e, obviamente, em Lisboa antes disso, em 1993. Mas iremos aí porque Portugal é um sítio muito especial. A outra razão é que só vamos tocar em locais pequenos, já que não queríamos tocar em estádios gigantescos... Esta digressão de Verão é como se fossem as nossas férias. Queríamos que fosse muito aprazível tocar nestes locais pequenos em vez de estarmos perante dez ou quinze mil pessoas».

DISCO: RUMOS E DIFERENÇAS

«OK Computer» é considerado, quase unanimemente, um dos discos maiores da década de noventa, fulcral na história da música no limiar do novo milénio, disco-farol da arte de desmontar e subverter toda a lógica linear do formato «canção» que os Radiohead tão bem exploraram. O passo seguinte a um disco que leva o carimbo de «genial» vindo de tudo quanto é lado, é naturalmente problemático. Neste caso, diz Ed, «(pequeno riso) nós limitámo-nos a tentar fazer qualquer coisa diferente. Basicamente, construímos o novo disco num estúdio nas imediações de Oxford, fomos para Paris por duas semanas, para Copenhaga outras duas semanas e gravámos. Tentámos apenas fazer com que as coisas resultassem, pô-las para fora de nós e fazer coisas diferentes, abordar as coisas de uma forma distinta. Quando o "OK Computer" saiu as pessoas perguntavam-nos: "como é que vão fazer depois de «The Bends», já que era um disco tão bom?" e antes disso era "com o que é que vão suceder a um single como «Creep»?". Acho que o que fizemos em cada momento foi produzir um disco diferente do precedente e o disco que fizemos agora é diferente do "OK Computer". E tem que se insistir em ser diferente, porque não se vai necessariamente fazer um disco melhor. Tudo o que se pode almejar é fazer um disco diferente».

Mas, segundo um raciocínio de que se tenta sempre subir mais um pouco ao invés de haver apenas uma deslocação paralela, será de esperar que na realização de «Kid A» tenham sentido a necessidade de serem mais ambiciosos... «Acho que aquilo que precisávamos de fazer -- ou, pelo menos, aquilo que sentíamos -- era continuar a extremar os sons e a forma como se dá a abordagem às canções na composição. O Thom (Yorke), liricamente, esforçou-se muito e nós, enquanto banda, desafiámos a ideia da noção da banda e tornámo-nos mais um colectivo em muitos aspectos. Há temas em que há apenas um piano ou um teclado e voz. Em muitos dos temas quisemos fugir à formação bateria e guitarras que temos tido, porque sentimos que já tínhamos explorado essa área tanto quanto nos era possível. Tem que se ser pretensioso, tem que se agir como um artista agiria, têm que se abraçar as novas tecnologias -- computadores, baterias electrónicas... Nunca se deve pisar o mesmo solo, têm que se fazer coisas novas». E para se alcançarem essas coisas novas e descobrir esse caminho de diferença houve muita discussão a preceder o processo de composição e gravação?

«Sim, conversámos muito, mas não há nada como mergulharmos realmente na situação. O que descobrimos quando entrámos no estúdio no princípio do ano foi que estávamos constantemente a reavaliar o que a banda era e aquilo que queríamos que fosse. No último ano quase nos separámos por três vezes porque estávamos a tentar encontrar um rumo. Não podíamos continuar a trabalhar como fazíamos antes, não se pode continuar assim. Preferiríamos parar a continuar assim. Trabalhámos livremente e falámos das nossas intenções para o que íamos fazer... depois tenta-se transformá-las em actos e às vezes resulta. Mas é um processo muito longo. Durante um período não vimos a luz no fundo do túnel. Requer alguma paciência e conversas, a reavaliação de cada célula: "o que é que gostas nesta situação?", "não gosto disto", "musicalmente, quero realmente fazer ou experimentar isto". Tem que se falar e reavaliar o que se está a fazer a toda a hora».

Mas a luz ao fundo do túnel, que os Radiohead finalmente encontraram, fugiu-lhes durante um período demorado, reflectindo a normalidade de uma situação em que um grupo assume por completo a tentativa de se desviar do percurso até agora traçado. «Sentimo-nos sempre perdidos. Isso é parte do problema. Andávamos como um cego, a tropeçar e sem nos apercebermos daquilo que tínhamos. E então começam a completar-se canções que estão a ser misturadas e juntam-se as canções e, de repente, tudo toma uma forma, mas no princípio não tínhamos uma ideia. Nos discos anteriores tínhamos uma pequena imagem da ideia do que o álbum poderia ser, porque eram basicamente canções "ao vivo" gravadas em estúdio. Mas desta vez não tínhamos a mínima ideia. É interessante porque o disco alterou-se durante cinco semanas, enquanto íamos acabando e seleccionando os temas. Mudou sempre. Não tínhamos ideia de como iria soar».

DISCO: PRAZOS E ESTRUTURAS E CANÇÕES

Pela primeira vez na sua história, os Radiohead dispuseram de todo o tempo que entenderam para os trabalhos respeitantes ao seu novo disco. Mas será que trabalhar sem prazos-limite torna tudo mais fácil e põe de lado a pressão de ter que apresentar as canções embrulhadas numa data previamente fixada ou, pelo contrário, tais circunstâncias dão origem a uma insistência e atenção excessivas a determinados pormenores e perda de concentração e focagem nos objectivos estipulados? «Eu até acho que os prazos são algo de muito bom», revela Ed. «Os prazos obrigam-nos a tomar decisões e essa é a chave. A verdadeira chave para se fazer música é a tomada de decisões. Se não houver um prazo-limite nunca se tem que tomar uma decisão. Se se toma a decisão está-se, basicamente, a assumir que "isto é bom, isto está certo, vamos avançar". Os prazos-limite são uma coisa fantástica. Mas, agora, acho que precisávamos de trabalhar este material sem prazos, ver como era. O problema é que se não houver prazos podemos prolongar-nos eternamente». Para este disco «trabalhámos cerca de dezoito meses, com algumas interrupções. Mais nos últimos oito meses. Antes disso era do tipo: duas semanas de trabalho, três de pausa».

«O que acontece é que durante muito tempo não tivemos arranjos definidos para as canções. Mas temos que pensar nos arranjos como os andaimes numa casa. Aquilo que mantém a casa de pé enquanto está a ser construída. Esse trabalho é necessário. (É uma analogia terrível, desculpa). Depois enche-se o resto. Tem-se o arranjo e juntam-se-lhe cores, que são os sons, etc. A outra coisa interessante é que, por estarmos a recorrer a computadores, podemos alterar os arranjos. Nos ensaios antes do "OK Computer" e "The Bends" já tínhamos os arranjos feitos, mas para este disco não. Foram como que deixados para os computadores, igualmente. Foi muito interessante».
O trabalho desenvolvido com os computadores «é interessante mas temos que nos acostumar porque é essencialmente um trabalho de uma ou duas pessoas. Não dá para se amontoarem cinco pessoas em volta do computador. É um método de trabalho lento mas também pode ser muito libertador porque nos permite fazer algo como "atirar" coisas para os temas, improvisar por cima deles, escolher o melhor pedaço. Usámos muito disso. É nova tecnologia e uma forma de atingir sons novos, novas formas de trabalho».

Uma das direcções que se poderia presumir que constituísse ponto de orientação para o trabalho em «Kid A», era a utilização de estruturas nada lineares como se podia ouvir num dos melhores temas de «OK Computer»:
«Paranoid Android». No entanto, Ed explica que «as canções têm estruturas, não têm forma livre. Há uma música que surgiu de uma improvisação, mas até essa tem uma estrutura. É precisa uma estrutura para que as coisas façam sentido. Está lá uma estrutura, mesmo que numa primeira audição não pareça». Mas será que se tratam de canções com a estrutura clássica?
«Sim, temos várias. O que acontece é que ao fazermos outras coisas, sem estruturas clássicas, passamos a apreciar o "verso-refrão-verso-refrão-quebra- refrão-fim-da-canção". Quando se esteve a fazer algo sem estrutura há algo de incrivelmente satisfatório em fazer algo que tem uma forma muito simples, porque resulta. Mas se esse é o único método de trabalho torna-se monótono. Tem que se manter as coisas frescas. É fácil de apontar quando as bandas já se arrastam há muito tempo porque soam aborrecidas. Muitos discos de bandas com sucesso têm sido lançados e porque é que as bandas mais bem sucedidas se perdem? Perdem-se porque se aborrecem, porque já fizeram tudo antes. E não são músicos de jazz, não podem continuar a desenvolver a sua arte como o jazz. Ficam presos neste tipo de estrutura "verso-refrão", que é muito bom e resulta -- e é importante de conservar -- mas não se pode limitar a isto».

Em «National Anthem» -- um dos temas mais bem conseguidos de «Kid A» -- e noutras duas faixas, os Radiohead contaram com os préstimos de secções de metais e cordas. Experiências que o grupo quis levar a cabo «porque são sons diferentes. Por exemplo, no "National Anthem" eu nem sequer toquei. Não me importo, porque aquilo que eu possa tocar na guitarra ou no teclado não pode produzir aquele som da orquestra de metais, e o Jonny (Greenwood) e o Thom gostam muito de Charles Mingus e orquestrações de big-bands e queriam experimentar. Resultou e foi fantástico. Só porque fomos uma banda de guitarras no passado, eu não quero tocar apenas guitarras, quero usar instrumentos diferentes para conseguir sons diferentes e ambientes diferentes. E agora estamos numa posição fantástica em que podemos recorrer a excelentes músicos. Assim sendo, porque não usá-los?».

Tendo esta entrevista sido realizada numa altura em que nenhum dos temas de «Kid A» era do conhecimento público, Ed O'Brien encarregou-se de descrever, na medida do possível, o disco que nos esperava. «É muito diverso e muito diferente. Faz todo o sentido para o nosso tempo. É muito difícil descrever sons mas parece-me adequado para o tempo que corre. Há material que tem ligações ao que fizemos no nosso passado mas há igualmente muita experimentação. Estou muito orgulhoso. Não é um disco de rock'n'roll, não é um disco de tecno... É um álbum dos Radiohead, é o que nós devíamos estar a fazer: música nova e diferente».

Gonçalo Frota

0 comentários:

Blogger templates