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será lançado em DVD em dezembro

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

[Review] In Rainbows



por Ruth Queiroz


How come I end up where I started?

O verso/pergunta que abre o disco talvez defina a temática Radioheadiana do novo álbum, em outro momento se diria “Down is the New up”, todo fim é o começo. Sétimo e mais polêmico da banda, lançado em 10 de Outubro de 2007 em uma versão digital para download com a grande questão “o quanto você acha que vale”, em 3 de Dezembro do mesmo ano em uma caixa contendo dois CDs e dois discos de vinil .

Assim, com 15 Step, um som inusitado com pegada afrobeat (graças talvez, ao um ano que Jonny Greenwood ouviu apenas esse ritmo, segundo a Rolling Stone), com batidas lembrando um ritmo quase tribal, passando para um fantástica linha jazzie de baixo. Em letra original ele traria “friends forever, fifteen steps then a sheer drop” “amigos para sempre, quinze degraus então, numa gota transparente” o que facilmente nos remeteria a uma interpretação que nos levasse aos 15 anos da carreira, a um momento onde tudo fica claro, isso sabendo das tensões que a banda passou para que o álbum saísse! Mesmo a letra lançada “Fads of whatever” nos leva ao mesmo ponto. Letras e músicas irônicas, nenhuma linearidade em ambas, trazendo a canção mais dançante e instigadora ao movimento do álbum.

Bodysnatchers com riffs alucinantes de guitarras de Ed O’Brien, Jonny Greenwood e Thom Yorke, nuances que trazem na letra o “coma”, a tensão da reflexão de que nada pode ser mudado “I am trapped in this body and can’t get out”, a aceitação do “é assim que sou por mais que lute contra” a incerteza século 21, o continuar simplesmente e ver no que vai dar, o que por fim, vai ser a temática de todo álbum “a não certeza de nada, dúvida sempre, mais de um caminho possível”, e a grande verdade artística “I”m a Lie”assim, reafirmando as “contradições” que aparecerão por todo o álbum.

A belíssima e inebriante Nude traz um ambiente de musicais e grandes interpretações vocais com um Thom Yorke quase “piaffiano”, falsetes magníficos, contrastando com uma letra insinuante e sensualmente instigante, irônica e quase satiricamente aconselhando que as “grandes idéias nem sempre acontecem”. Os acordes refeitos por Colin Greenwood, mudando um pouco a versão anterior de “Big Ideas”
Reavivada com acordes simples de guitarra, bateria minimal, baixo dando um climão de fundo musical para enlace romântico.

Weird Fishes/Arpeggi, segundo a própria definição” O arpejo é uma forma de executar os tons de uma corda: em vez de tocá-los simultaneamente, são ouvidas em rápida sucessão, geralmente a mais grave aguda.” assim, Arpeggi é o som mais complexo do IR, as cordas arpejantes com bateria intensa e ritmada de Phil Selway. O baixo reproduzindo a tensão Junguiana da letra, essa, teria sido segundo Thom Yorke, um sonho que teve, de ser engolido por peixes estranhos. A parte dessa idéia, a letra traz a dúvida existencial “ o porquê e o para quê” ir ou ficar “Why should I stay here” seguir ou esperar “I’d be crazy not to follow, follow where you lead”, questão lindamente resolvida do entendimento que é necessário chegar ao fundo para conseguir emergir e sair “I’ll hit the botton and escape”. Talvez em sua complexidade, letra e música, seja a mais bela canção do disco, ao menos, a mais densa.

All I Need é a linda e hipnotizante canção que prima em suas linhas de contrabaixo pelo intenso, contrastando com o xilofone tilitante de Jonny Greenwood, dando uma sonoridade espacial , vocal grave demonstrando a densidade da letra desalentada, ao mesmo tempo que pode demonstrar a certeza de saber que o outro é “All I Need” , em momentos mostrando uma insignificância de ser “I'm an animal trapped in your hot car, I am all the days that you choose to ignore” ou “... just an insect trying to get out of the night”, o que culminará na dúvida em questão do álbum “S'all wrong...S'alright”.

Faust Arp, dois violões ilustrando de forma simples a bela canção que paradoxalmente ao conto lendário de Fausto “homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles” (esse será relembrado em Videotape) ao qual inevitavelmente nos remetíamos. A letra demonstra pequenos conflitos cotidianos que vão encerrar na questão maior “For no real reason... There's no real reason”, enfim, não é essa a questão. Delicada e simples, ela nos traz uma sensação de momento de parada para o deleite.

Reckoner parece ser o âmago da questão In Rainbows, como ela mesma diz em seus versos “fomos separados sobre ondulações da areia branca , sob o arco-íris” lembrando de que “na emocionante aventura da vida formaremos o arco-íris humano, sinal concreto de harmonia e equilíbrio.”, ensinamento budista. Os acordes repetidos e brandos, serenamente organizados, lembram um som monástico, o vocal em constante falsete, dá a ela um clima de quase meditação. Outra linda canção que parece, conseguiu o pretendido, tremenda paz e deleite ao ouvir.

Os acordes simples de House of Cards trazem com a letra, de volta a questão de que “não importa como isso vai começar ou terminar” , demonstrando no entanto, de relacionamento onde há os perigos da negação do existir, De novo, contrastando a simplicidade de som em clima relaxante, com uma pegada quase “bossa nova” encontramos a densidade instigante da letra, demonstrando toda uma tensão de uma estrutura prestes a ruir, entrar em colapso, a incerteza há de vir e o conflito sempre presente “
Jigsaw Falling in to Place e sua letra definindo a temática apresentada diz “there is nothing to explain” talvez, remetendo às tão faladas linhas ou não de guitarras trazidas até OK Computer, negadas em Kid A, retomadas de Amnesiac em diante, parece afirmar “o quebra cabeça se encaixa, antes que me tirem o microfone” é isso o que a banda quer dizer. Repleta de cordas desajustadas e distorcidas, um som empolgante em que ao ouvi-lo, dificilmente se consegue ficar parado.

“today has been the most perfect day i've ever seen” é essa a grande mensagem trazida na tristonha Videotape, com batidas desoladas ao piano, crescendo depois pra uma sonoridade que lembra fita VHS encerrada ao esquecimento, em repetidos sons de percussão lembrando um aparelho igualmente solitário, indo e voltando. A lembrança através das imagens, de momentos de conflito, tolhidos entre bem e mal “When mephistopholis is just beneath” constatando após “You are my centre when i spin away” mas que ainda assim, teria que haver uma despedida.

Essa canção encerra o álbum, novamente citando matéria da Rolling Stone, contrariando a vontade de Nigel Goldrich, produtor musical da banda, e de Thom Yorke, o que nos leva a pensar que toda a ambiência de fim trazida por ela, nada mais é para ambos, o começo de algo que faria desse fim “o mais perfeito dia já visto”.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

(Review) Kid A – 2000

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Como as décadas finais de pelo menos dois séculos anteriores, os anos 1990 foram marcados por uma retrospectiva dos 90 anos anteriores, aglutinando em células compactas de conhecimento

tudo aquilo que a centena de anos completa ao final da década quis dizer pausadamente. Mas a década que encerrou-se no final do ano passado foi caracterizada por outros sabores: a ironia e o excesso de informação.

 

Associadas, estas duas qualidades despem a grande verdade sobre a sociedade capitalista às vésperas do novo milênio, um paradoxo em escala planetária que nos emburrece à medida que mais aprendemos. O saber está no ar, mas ninguém está interessado em mostrar como usá-lo.

Na música pop, estas características foram detectadas pela primeira vez pelo U2. Embora ecos destas qualidades já viessem cantando os 1990 por caminhos alternativos na década anterior (como os discos Paul's Boutique, dos Beastie Boys; Pills'n'Thrills and Bellyaches, dos Happy Mondays; e Into the Dragon, do Bomb the Bass), foi apenas com Achtung Baby que elas se encontraram com o teor que filtrou a década. Ali estão a paixão pelo virtual frente à realidade ("Even Better than the Real Thing"), referências à história do rock ("Who's Gonna Ride Your Wild Horses?", "One"), paranóia ("The Fly") e um misto de expectativa com esperança ("Zoo Station"). "Você? Você estava falando do fim do mundo", debochava Bono enquanto mudava radicalmente o visual de sua banda, abandonando a pose de sacerdotes do rock e entrando num terreno estranho à sua antiga religião: a música eletrônica, um carnaval de ritmos e cores fundido com o preto e branco ríspido do fotógrafo Anton Corbijn. O disco de 1991, no entanto, não funcionava sozinho. Vinha acompanhado de uma extensa turnê dividida em três fases (Zoo TV, Zooropa - que acabou virando disco - e Zoomerang), que assistia a banda entre dezenas de monitores de TV e automóveis pendurados no palco, numa clara alusão à deselegância burra pré-colapso do capitalismo. Numa fantasia de caubói prateada, Bono rasgava notas de dólar enquanto, como pastor evangélico, anunciava que teve "uma visão": "TELEVISÃO!", berrava frente ao câmera que, do palco, registrava tudo pelas telas espalhadas no show. Juntos, a Zoo Tour e Achtung Baby deram o tom "rir pra não chorar" que acentuou-se nos anos 90.

 

A ironia virava fórmula e todas as mídias passaram a usá-la, primeiro o cinema, depois a TV, caindo no gosto popular e reverberando, assim, por todas as formas de comunicação. Falar a verdade era constrangedor demais - ou melhor, falso demais -, por isso era melhor fingir querer dizer justamente o oposto, finalmente, desta forma, atingindo seu objetivo. Passamos a ler textos que nos fingiam contar o contrário do que realmente queriam dizer, ouvir músicas que ridicularizavam o hábito de ser humano, ver filmes cujo verdadeiro tema só é desvendado da metade para o fim, contradizendo tudo que havia sido visto desde o começo. A propaganda passa a se ridicularizar na tentativa de ganhar crédito com o consumidor. Tudo é muito falso, todo mundo sabe; então porque não assumimos falsamente esta falsidade? Era isso que a ironia nos anos 90 significou: uma espécie de afirmação de identidade cultural às avessas, corrompendo nosso entendimento da realidade numa mão dupla, que ao mesmo tempo que acende uma vela pro sim (afirmando algo), acende outra pro não (ridicularizando aquilo que está sendo afirmado, simultaneamente). Sem um, nem outro, caímos na década do "tanto faz", em que as pessoas passaram a fazer exatamente o que o capitalismo queria, plugando-se às necessidades consumistas como se estas fossem responsáveis pelo bem estar espiritual - não material. Até Alanis Morrissette, em seu maior hit, perguntou: "Não é irônico?".

 

É neste cenário que o Radiohead surge como força disposta ao desequilíbrio. O grupo surgiu na Inglaterra no começo dos anos 90, mas só conseguiu fazer sucesso nos Estados Unidos, graças ao hit "Creep" (do LP Pablo Honey, de 93), ganhando primeiro o público, depois a crítica americana. "Você é tão fucking especial", sussurrava o vocalista Thom Yorke, "mas eu sou uma coisa, sou um esquisito". Só ganhou algum reconhecimento em seu país ao se levar mais a sério em The Bends, de 94, onde deixavam de falar de relações cotidianas para contemplar a sociedade moderna como um todo, num dos primeiros discos conceituais da década (tantos viriam depois). O grau de importância do grupo foi crescendo tão logo eles ganhavam intimidade como músicos, contemplando possibilidades diversas a partir do formato três guitarras (Yorke, Jonny Greenwood e Ed O'Brien), baixo (Colin Greenwood) e bateria (Phil Selway). Reinventando o rock clássico como fazia o indie rock americano na metade da década passada (com uma certa dose de ironia, claro), o Radiohead chamava cada vez mais atenção.

Até que atingiu seu auge com o clássico inato OK Computer, ácida descrição da sociedade capitalista sem ironia nenhuma. Ao reproduzir as normas do novo dia-a-dia sem se preocupar com sentido lírico (quase todas as composições do disco de 97 empilhavam referências e situações sem o comprometimento com o sentido), ia nos vestindo com a roupa do andróide paranóico que a vida consumista de hoje nos transformou. O disco também antecipava a invasão techno ao mercado que aconteceria naquele mesmo ano (com os discos Dig Your Own Hole, dos Chemical Brothers; e The Fat of the Land, do Prodigy), mas apenas nas entrelinhas - a produção sci-fi de Nigel Godrich deixava apenas um ar eletrônico no álbum. Sem contar a música em si, as progressões guitarreiras que mudavam a atmosfera das canções, dando uma dinâmica inédita ao som do grupo. Incensado pela crítica, OK Computer tornou-se padrão de excelência do rock dos anos 90.

E o que fazer depois disto? Depois que toca-se o céu, resta outro rumo senão a queda? O grupo passou a dedicar-se a uma turnê em que viu-se condicionado ao máximo do capitalismo que criticavam. Laureados como a mais importante banda de rock do mundo, o Radiohead tentou lançou um EP (Airbag / How Am I Driving?) e dois vídeos (a coletânea de clipes 7 Television Commercials e o homevídeo Meeting People is Easy) na tentativa de esgotar a responsabilidade em torno do próximo álbum. Em vão: cada produto lançado era recebido como prova que o sucessor de OK Computer vinha aí.

A solução seria eliminar os parâmetros conhecidos e assim o grupo começou a trabalhar: Thom Yorke desencantou-se com a melodia e passou a procurar alternativas rítmicas. Ed O'Brien queria um disco curto, enxuto, com canções simples e diretas. Colin preferia um álbum mais aprofundado na eletrônica, mas sem soar "techno". Kid A (EMI) é o produto das cinco (seis, contando o produtor Nigel) perspectivas de como o grupo fugiria do formato OK Computer.

O resultado é um disco árido, tenso, pós-rock, ermo - adequado para o ano 2000. Enquanto a quantidade de informações contida no álbum anterior dava um aspecto de poluição visual ao disco, o novo álbum elimina recursos visuais em favor de uma música sem rosto, sintética, ciborgue, futurista. Mas enquanto o futuro de OK Computer era hi-tech e bucólico, o de Kid A é vago e ameaçador, como se o espírito de máquinas mortas sobrevoasse por cima de desértica paisagem pós-apocalíptica.

O disco abre com teclados lunares que reverberam ondas eletromagnéticas que funcionam como uma canção de ninar por onde Thom Yorke pode improvisar apaixonadamente a letra. "Tudo está no lugar certo", ele canta ao começo do disco, repetindo os versos à medida que a canção se robotiza, cada vez mais. Entra a faixa-título, novos teclados (e caixa de música marcando o andamento, ao lado de uma bateria de bebop) descortinam o caminho para a entrada do vocal, um zumbido metálico que com certeza canta algo, mas em idioma indistinguível. A voz de Yorke é distorcida por um aparelho pré-histórico chamado Ondes Martenot (usado na trilha de Star Trek) e remete ao Menino A, o primeiro clone humano, como reza a mitologia radioheadiana.

Esta forma carinhosa que o grupo se refere à pioneira cópia de DNA humano posta em prática num laboratório (que poderia se chamar qualquer coisa mas é reconhecido com uma intimidade familiar) torna possível outro paralelo com Stanley Kubrick, o maestro cineasta cuja pompa e pulso firme à direção, já que OK Computer remetia instintivamente a 2001 (quando a máquina contra-ataca). No novo disco, o Radiohead contempla A.I., a ode não-filmada do cineasta à robótica, em que ele assume que as máquinas são herdeiras do legado humano, nossos descendentes. O grupo vai além e pensa no clone como descendente, a máquina perfeita projetada pela natureza e reprogramada de acordo com nossa vontade. Mas que vontade? Racional ou instintiva? O grupo deixa a resposta em aberto, por enquanto.

"The Nation Anthem" nos apresenta ao baixista da banda, Colin Greenwood, que puxa um groove funk pesado que escurece mais ainda à entrada de um time de metais reverenciando os graves pesos-pesados de John Coltrane. Em falsete, Yorke canta a vontade e a disposição de mudar, que aos poucos impregna o inconsciente coletivo: "Todo mundo por aqui / Todo mundo vai parar aqui / O que está acontecendo? / (...) / Todo mundo vai parar aqui / Todo mundo vai parar o medo / O que está acontecendo?". Ao citar literalmente o nome do mítico disco político de Marvin Gaye (What's Going On? - O que está acontecendo?), o grupo nos lembra que os tempos atuais são tão (ou mais) interessante que os anos 60 que inspiraram Gaye a se perguntar sobre a ordem mundial. O grupo prega decisões coletivas como a melhor forma de ir contra o individualismo robótico e passivo de OK Computer. Não é nenhum pouco diferente do que a simbólica luta anti-FMI / OMC / Banco Mundial que já nos deu notórias batalhas como em Seattle (no ano passado) e Praga (semana passada).

"How to Disappear Completely and Not Be Found" finalmente apresenta os violões, enquanto o vocalista nos lembra que o filme Matrix é na verdade uma metáfora da nossa situação atual: "Eu não estou aqui / Isso não está acontecendo", balbucia Yorke, enquanto o disco vai ficando cada vez mais lento, atingindo seu ponto máximo de estática na instrumental "Treefingers", entrando vagarosamente no terreno gelado das brancas vibrações eletrônicas de Brian Eno. "Optimistic" poderia ser irônica caso se referisse à sociedade (ainda mais com este título - "otimista"). Mas a paisagem que o grupo vê é pós-civilização e o otimismo a que se referem é um abandono das tecnologias, uma volta à natureza, onde a lei da selva - perfeita - reina soberana: "Os peixes grandes comem os pequenos", canta a letra sobre guitarras psico-metálicas que poderiam ter saído de LED ZEPPELIN III, "tente o melhor que você pode / O melhor que você pode é o suficiente". "In Limbo" parece apenas descritiva, ecos e guitarras dissipando conforme a paisagem é mostrada: "Estou do seu lado / Não há onde me esconder / Estou perdido no mar / Você está vivendo uma fantasia / Não se importe comigo", num novo ataque ao individualismo.

O ritmo marcial technopop que soa através de "Idioteque", marcando um compasso eletrônico por onde a sociedade do desperdício é cruelmente descrita, em vocais familiares (mas entrelaçados de uma nova forma) de Thom Yorke: "Deixa eu te dizer que você é o primeiro / Eu vou rir até minha cabeça sair / Eu vou engolir até explodir / Já vi muito / Já vi tudo / A era glacial está vindo". Descreve os seres humanos como dinossauros às vésperas da extinção, porque já ultrapassaram o limite de consumo de recursos naturais. O sotaque techno (proveniente da atual obsessão do grupo: a gravadora Warp) só ajuda a entender a crítica do grupo, que vai de encontro à letargia e o subsequente estado de automação que o ser humano aos poucos vai se submetendo - o ponto central de OK Computer. Em "Morning Bell", o grupo volta ao campo da melodia do último álbum (até certo ponto ignorado no novo disco) e como um aparelho de TV ligado durante um bocejo matinal despeja informações de forma vaga e desencontrada - "Eu não conheço o assassino", "Onde você estacionou o carro?", "E todo mundo mente para mim", "Todo mundo mente nas pesquisas" e o golpe final "Todo mundo quer estar lá / Todo mundo quer ser o mesmo / Andando, andando, andando, andando". A vida moderna é um tédio.

Kid A termina com a melancólica "Motion Picture Soundtrack": "Pare de mandar cartas / Cartas sempre queimam / Não são como os filmes / Que nos enchem de mentiras brandas", divaga o vocal triste e tímido do final, que enuncia um clima de felicidade mágica à Walt Disney (orquestras cheias de harpas dedilhadas) por baixo do tremor original do álbum. Estamos no meio de uma cratera, depois da bomba explodir. Esta bomba é o século 20, que se engole cada vez mais à medida que chega ao fim. Quando 2000 passar, zera tudo. É contemplando este futuro que Kid A sorri. É um sorriso estranho, não-humano, pensativo. Mas feliz e esperançoso, como há muito não víamos.

Matéria encontrada em : Trabalho Sujo

(Review)Radiohead – Hail To The Thief

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A constatação desconsoladora de um mundo de cores cada vez mais sombrias e transbordando referências por todos os poros - como uma engrenagem psicodélica , indomável e onisciente - marca o regresso dos cabeças de rádio aos seios de um mundo doente.

 

Por: Cybernic

 

O espaço onde – depois de passarmos pela porta da melodia – e entrarmos num universo de sensações moleculares pode ser vislumbrante e pertubador. Temos essa certeza já nos primeiros segundos de Hail To the Thief. Ao plugar da guitarra somos arremessados numa bolha indivizível  que vai crescendo aos poucos, nervosa - como o mundo em quem vivemos pós-11 de setembro - como o cotidiano e uma manhã qualquer. A matéria viva se dilata em dimensões inimagináveis, cada fragmento de esparros e soluços fogem do controle e da gravidade – essa há muito tempo subvertida pelo grupo de Thom Yorke e Jonny Greenwood – mentores de um som futurístico profundamente odisséico num lamaçal sintético visionarissimo e sobretudo urbano. Como aliens indefiníveis que passeiam pelas ruas com câmeras fotográficas - c0m olhos de crianças - para futuras análises não só do mundo mas de si mesmo. Cada metro quadrado do sexto rebento produzido pelos rapazes de Oxford respira a incerteza certeira que a máquina – O grande irmão de Orwel – como uma vírus – penetra nos poros dos nossos gestos quase involuntários e vai criando - como um embrião mutante - a esquizofrenia materialista  e ditando a  ordem dos passos dos pensamentos e fundido-se em nossas artérias engessando e domando a natureza instintiva e porque não imaterial e vívida de cada um em meio a estrutura erguida em suas 14 faixas definitivamente acima do padrão de Nigel Grodich - o mítico sexto membro do grupo.

Como disco Hail to the thief foi arremessado na categoria de álbum que reúne um pouco de cada uma das obras do grupo mas como disco, Hail to the thief concentra muito mais que um apanhado de referências próprias. Embarcações flutuantes para a lua e delírios de anjos desabando, tesouros inconfessáveis de raras melodias e fusões impensadas de jazz eletrônica e experimentalismos com assinatura própria, transforma o petardo num disco chave. Não só isso. As canções foram submetidas a intensas experiências sensoriais e ao calor e afago de um público sedento. Um disco de uma banda que arrisca rupturas rítmicas e calendoscópios espaciais, num verdadeiro artefato de percepções. A tarefa árdua é traduzir cada centímetro quadrado. E esse compartilhamento de informações entre artista e ouvinte deve ser paciente e juntar cada pedaço e montar o mapa dos sentidos requer aos desavisado e para fãs antigos que esperavam vida fácil (após os quebra cabeças Kid A e Amnesiac) um tempo de diluição mais paciente nas veias da sensibilidade. As referências passam pela literatura política de Orwel, Deleuze, Guy Debord à "krautrokces" nervosas de Neu e Kraft e pelos universo concretamente virtual de Four tet e o jazz alien de Alice Coltrane. Ouvimos mais uma vez  o tenebrosono instrumento eletrônico da década de 20 ( Ondes Martenot) despejando nevoeiros sobre a tela, os clássicos xilofones transformados em rádios transmissores emitindo mensagens secretas à outras galáxias, palmas ouvidas em outras dimensões, tambores ancetrais do futuro e linhas de baixos indecrifráveis montam e remontam uma obra inenarrável que agride com a passividade poeticamente inerte de Thom Yorke e  acalma como uma demente chapação subversiva entre arte e o cotidiano surreal não menos real e  nos perdemos em meio a indefinições auditivas atemporais.

 

Mesmo que não tenha agradado à banda – muito pela correria da gravaçao inconfessada em poucas semanas  e pelo número “exagerado” de faixas – um abuso de artistas exigentes e sempre insatisfeitos - o mundo pessimista e intimista se espalha em verdadeiros submundos erguidos nos becos e esquinas do tempo.

 

 

(Thom Yorke) O ser atormantado é apenas o fio condutor que não conduz e sim é conduzido para as crateras do que poderia ter sido e jamais aconteceu -  Um mundo de cores mais consoladoras e um início de século esparançoso e linear? mas não. Respiramos o cansaço juvenil e o medo onírico do presente, como lobos devorando nossa própria infância nos sentimos constrangidos e renegados por nós mesmos e acreditamos que tudo continuará do mesmo jeito ou pior. Não, Hail to the thief não é um disco pessimista.  O mundo é a matéria prima – e mesmo que isso não seja feito para deixa-los felizes – pelo contrário certamente – a obra nasce dessa carcaça de sonho – desse bálsamo ácido - desse quadro tão íntimo e confuso que ao mesmo tempo riscamos - fazendo arte (?) e produzindo vida e que as cores já não fazem muito sentido e  haveria de ter?. Hail to the thief é o parto – expelido pela alma – do próprio mundo – cada elemento dele – célula sonora que divide-se em dimensões sensoriais se adaptando ao tempo e nós a ele – é a materialização hologrâmica – como um espelho turvo – de nós mesmos. Um obra que servirá como documento histórico do papel que a visão de um artista, sobre o  tempo em que viveu e como isso o atinge irreverssívelmente, pode definiar sua arte  e sua atemporalidade. Hail To the Thief é a prova - Definitiva - que estamos no tempo onde 2+2 é 5...

Mais um trabalho  do  quinteto para ser discutido interminavelmente pelas próximas gerações.

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

[Review] The Bends

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Por: Cybernic

 

 

Amigos imaginários povoam nossas vidas desdos tempos de infância e preenche nosso mundo com o universo único do sonho. Depois crescemos, adquirimos a responsabilidade e os pesos do mundo e algumas coisas se perdem, mas outras permanecem intactas sobre outras formas. Papel fundamental da arte e uma das suas vocações. Espreguiça-se dentro de nós, empurrando a inércia para o lado de fora, trazendo luz aos sentimentos e desatrelando nós de qualquer vazio. Mesmo que essa seja espelho do próprio artista e de sua obra mesmo que essa seja vasta e infinita. E esse papel de "amigo imaginário" é o papel que The Bends tem pra mim. Do primeiro e crucial mergulho até o âmago do que somos e ao avançar da profundidade a certeza...

Quem somos?

Um vento surge dos meandros do silêncio e se fragmenta em pequenos organismos que aos poucos vão reconhecendo um o outro e formando a textura de "Planet Telex". As distorções da guitarra misturam-se ao sublime canto desolador de Thom. Ele dobra-se, espreme-se pelos compartimentos de uma canção urgente e sublime não menos de alma quebrada. Se o mergulho está cada vez mais fundo, a faixa-título "The Bends" é o atestado de alguém perdido nas próprias poças imensas da profundidade. Para onde iremos? Canção irretocável. Texturas de guitarras estremecem vocais trovadores e tudo se acalma num violão desencarnado. O pessimismo toma conta até das mais sensíveis das verdades e a canção se eterniza erguendo a constatação de um abismo.

Se a urgência de uma alma febril pontua a textura das duas primeiras canções, Phil Selway pede calma e abre a sublime "High and Dry". O violão “Automatic for peopleano” pontua uma das mais belas canções da nossa geração. A certeza que estamos indo cada vez mais fundo e pior do que nunca e que isso parece sem volta. Não só não conseguimos mais controlar as coisas como elas controlaram e moldam o que almejávamos ser. O que almejávamos? ao olhar para trás o silêncio seria a melhor das respostas.

E depois de sentarmos num canto contemplamos a efemidade e a passagem das horas sob a dilacedora melodia pontiaguda de "fake Plastic Treens". Se as cores começam a desbotar e já não temos mais certeza do caminho, tudo começa a ruir e o sentido é deixado em alguma esquina. O violão rasga a pele da canção, Sem dúvida uma das mais belas de todos os tempos.

Sentimos isso nos ossos e até quando disfarçaremos? "Bones" é áspera e aponta em nossa cara. Escancara no meio da multidão dos nossos sentidos o desconhecido que nos tornamos e agride a ferida num ato desesperador de mescla de medo e otimismo encarnado. Quando vamos voltar a sentir? As guitarras erguem as paredes para depois desabá-las. E nós, Peter pans envelhecidos despencamos na cama em lágrimas e soluços.

Ainda temos força para um sonho bom? "Nice Dream" é a própria beleza radiohediana em forma de esperança desolada em algum horizonte sem horizonte. O violão choca-se com pequenas construções de piano e solo erguendo uma nuvem acima das nossas cabeças. Se olharmos bem, são os sonhos bons que nos movem além de nós mesmo.

A queda contínua, apos um momentâneo esquecimento é retomada na dissonantemente instigante"Just". O violão é soterrado pelos braços de guitarras que transbordam por todos os poros. Canção amarga que te joga pelas goelas e vamos capotando em solo desconcertante e vocal que te olha nos olhos, antes de te vomitar.

O mergulho parece deixar dormente até a alma mais perturbada e isso é descrito no hino "My Iron Lung". O diálogo entre as guitarras parece verdadeiras óperas ouvidas no fundo do oceano. A fé que abandona a falta até da própria dor, a ânsia para não cair nos sonos das meras lamentações juvenis e ali ficar, como alguém que sucumbe na própria poça de sangue permeia o pulmão de ferro da melodia.

Mistura de aspereza e sublimidade que deságua nos recifes e plana ao lado das algas de "Bullet Proof..I Wish I Was".

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O violão de volta a ordem vaga pelas embarcações das nossas memórias e olhamos apenas o movimento das coisas que vão e vem... Disposto a sentir até as útimas conseqüências, até o último suspiro, disposto a voltar, mesmo que para isso haja dor, voltar, voltar a sentir a si mesmo. E isso se entrelaça numa canção rara.

Se nosso mergulho íntimo é invisível aos olhos do mundo "Black star" surge de um crescente silêncio e como alguém devorado por mil ratos por dentro e todo colado por fora se perde em contemplações e sem poder explicar realmente os acontecimentos exaspera-se em desculpas que lembram os grandes poetas malditos e suas incompreensíveis e líricas verdades atemporais e dramaticas. E essas verdades formam e moldam aquilo que somos mesmo sendo apenas e, sobretudo para nós mesmos.

E essa espécie de constatação daquilo que não volta mais, se forma na beleza dramática de "Sulk" e se dilata como uma ferida exposta na última obra prima da obra. "street spirit". A dedilhação toca as mãos dos anjos da melodia e o vocal se encarrega de nos fazer voar nas imensidões de volta do mar, intenso e imenso mar do que acreditamos que somos. Para Yorke uma canção que o atinge e o consome e se formos pensar bem... Como ela nos atinge! A volta das profundidades mais inconfessáveis revela confissões silenciosas. O mundo. Como traduzir o mundo? Nós? Sonhadores? Toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor realmente? Todas as coisas que nos fazem desaparecer, todas as coisas posicionadas, tudo no seu devido lugar? Como desaparecer completamente? Arvores de plásticos? Num limbo? Flutuando para a Lua? Num rio de olhos negros?...Somos os espíritos das ruas. Das ruas de nós mesmo e do mundo. E para onde correr? A última mensagem dessa obra de arte chamada de The Bends - segunda obra desses meninos e sua primeira obra inesquecível é -

…Afunde sua alma em amor...

E nós, silenciamos com as lágrimas do sentir. A verdadeira razão desse disco, sentir!

Até a última gota de cada segundo... Sentir!

Como diz o poeta Fernando Pessoa:

“Sentir tudo Interminavelmente”.

Então voltemos e mergulhamos de novo e sempre à esse amigo imaginário – aquele que te ouve e te entende em forma disco.

Doze manisfestos que permanecem intocáveis em nossos corações.

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[Review] Radiohead – The King of Limbs

 

 

Por: Cybernic

 

Para muitos a arte nos dias de hoje não passa de um cadáver agonizando em meio ao caos da vida contemporânea. A banalização da vida, a violência, a degradação do meio ambiente, os jogos da propaganda consumista, a falta de uma certa espiritualidade, reúne elementos que tornam o ato de viver difícil, tenso, a não ser que você tenha em mente o desprezo pelo ser humano, pela natureza e abrace uma vida distante das questões que afligem nosso tempo.

Nesse sentido, poucos artistas, ainda comovem e causam algum tipo de estrondo e alvoroço nos tempos onde o consumo (de musica por exemplo) é imediato e descartável.

Quando surgiram em 1993 com seu debut (Pablo Honey) os Radiohead eram vistos como mais um grupo de grunge influenciados por nirvana, dois anos depois, fizeram um dos grande discos do rock inglês dos anos 90, o The Bends e se consagraria como o grupo a ser seguido no fundamental Ok Computer (1997).

Mas, a partir daí, O Radiohead reescreveu sua história e seguiu passos que dividiram muitos fãs, para não dizer que alguns se sentiram órfãos.

a verdade é que a banda dos amigos Thom Yorke, Ed, Phil e os irmãos Greenwood sempre foi inquieta e sempre dialogou com seu tempo.

Ok Computer captava um momento importante de avanço tecnológico, futurismo, o homem moderno de finais de século, sua condição como ser e em sociedade.

Kid A/Amnesiac (2000/2001) já captavam o inicio do novo milênio, as tensões da modernidade e o homem no centro desse fato.

Musicalmente os discos gêmeos estavam soterrados pela influência do free jazz de Alice Coltrane, pelo jazz cabeçudo de Charles Mingus e Miles Davis. Além da referencia ao krautrock de Can, faust e o os artistas da gravadora Warp, ainda que essa influência seja dita pelos quatro cantos como fundamental, os discos estão longe de serem discos eletrônicos, é um apanhado de influências que tornam discos herméticos e inclassificáveis.

Hail to the thief (2003) já ressoava com o abalo de um 11 de setembro que mudou a cara do mundo, rechaçou crises entre o oriente e o império americano, trouxe tensão e se tornou mais visível as máscaras do capitalismo. Tudo isso é captado de maneira metafórica no disco, considerado por muitos o mais "perdido" musicalmente, tese que os próprios membros da banda realçam por ele ter sido gravado muito apressadamente.

Mas musicalmente Hail to the thief reúne canções e coesa de difícil acesso, peças que foram retrabalhadas no extenso arsenal de sons da turma, um disco influenciado pela leitura de "Capitalismo e esquizofrenia" e "1984". Yorke nesse disco é como nós, mais um número no processo e aceita isso numa passividade agonizante.

Depois a banda encerra seu contrato com a EMI e lança-se independente. Captando as tensões num ciberespaço entre downloads e gravadoras, Thom & Cia são so primeiros da turma dos “grandes” a tratar o tema e não só isso, capta o momento delicado que a arte se encontra. In Rainbows (2007) poderia ser comprado com o preço que o comprador quisesse pagar ou até de graça, no geral, você refletiva o “valor” que a arte do grupo tinha pra você., forçando a pensar: Qual a o valor da arte nos tempos atuais?.

O estrondo foi grande numa mídia sempre sedenta por polêmicas e discussões. Musicalmente, o disco é nos ouvidos mais desavisados o mais acessível em tempos, suas canções parece ter sido esculpidas de tal maneira que não soam com nada parecido nos dias de hoje. Para chegar nesse fato a banda se atormentou e quase desiste e encerra suas atividades.
in Rainbows foi um marco estético, comercial, crítica e público, se renderam.

Pra onde ir?

Nos tempos de downloads intensos, motins virtuais, wikiliers,  gravadoras afundando, músicas e bandas de plástico, um mundo desencantado bate a nossa porta como um vento e bagunça nossa alma.

Qual o papel da arte nisso tudo?.

Qual o sentido de fazer música?

É nesse sentido que a banda nos apresenta seu oitavo filho.

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The King Of Limbs.

A criação de um sonho cantado como se real fosse e vivido em pouco mais de 37 minutos de um passeio por um lugar que nem lembramos mais. Nós mesmos.

A experiência de ouvir um Radiohead requer paciência, estar aberto a outras soluções para uma canção, outros andamentos, por vezes canções sem refrão, dissonância e quebras rítmicas pontuam uma turma inquieta e que mesmo com mais de 20 anos na estrada não se rende.

E sim, The King of limbs reúne uma banda disposta ao desequilíbrio.

Não, não é uma volta ao universo de Kid A/Amnesiac.
Nem ao estruturalismo que agrada os fãs de um rock mais escultural como o de Ok Computer. Também não é um novo In Rainbows é simplesmente uma obra única, fechada em si, de uma banda que inventou seu universo e gira sobre ele.

"Bloom" abre krautrokanamente. O piano elétrico (que ressoa a canção inteira) flutua (lembrando os primeiros discos dos alemães do Popol Vuh) e envolve os ouvidos, alguns segundos de loops de batidas até surgir um Phil selway alucinado (assim como em Morning Bell/Dollars and cents/Mixomatosis/15 step) num outro andamento, ainda por cima, o baixo do Colin em poucas notas pontua a entrada de thom (colin parece que gravou o baixo de um outro canal em marte) e permeia um thom em vocal chapante. Uma orquestração à la Alice coltrane ergue o clima,  a atmosfera de um florescimento lento.  "Abra sua boca" canta yorke, parecendo sobrevoar um descampado, possuído pelos mais intensos sonhos.

O free jazz continua em MorningMrMagpie. The king of limbs nos apresenta uma banda sinistra, A guitarra de jonny greenwood nunca antes tocada assim e de forma abafada entrecorta a tensão de uma bateria num compasso impenetrável, Phil realmente está na sua melhor forma. "Você tem muita coragem pra vir até aqui Você tem muita coragem pra vir até aqui" dispara Yorke entre setas, descompassos, tensão raivosa e lisérgica, a canção corre, free jazz /krautrock, tudo guiado pelo intenso frotman que não descansa. Pelo meio um violão bêbado dialoga num esquina solitária da canção. Tudo parece que vai se desprender do chão e colidir com alguma parede invisível mas estranhamente a canção se mantem, algo a faz se unir, um milagre jazz...

"Você roubou toda a minha magia E levou minha melodia".

Violão, baixo, bateria marciana e um lindo vocal permeia a bela  LittleByLittle. Canção que Jonny quase que solfeja as notas, enquanto Colin destila sua linha passeando por dentro da melodia ondulante e cheia de variantes com um Phil linear como se estivesse em outra freqüência.

"Obrigação, Complicação, Rotinas e horários, Droga e te mata Te mata"

Dispara um yorke confessional, que como num sonho, não quer acordar agora, o mundo de hoje exige mais do que viver, exige e te suga a alma.

A instrumental Feral (selvagem) parece um banda que não consegue encontrar sua razão. A melodia parece presa, Yorke tenta cantar algo mais tudo é abafado, incompleto, não há sentimento, a selvageria dos loops, o baixo do Colin que impregna, causa incomodação, aflição, thom parece um Cyborg se debatendo no meio de uma floresta.

LotusFlower nos apresenta para a segunda parte do disco. Seqüenciadores comandados por Jonny Greenwood, teclados gelados e um baixo sedutor (assim como em Nude e All i Need) realçam a cristalização de um vocal que parece que engoliu uma um luz desconhecida que da vida num falsete épico.

"Há um espaço vazio no meu coração onde cresce o mato
E agora eu vou te libertar, te libertar"

A bateria sempre incomum de Phil e os loops no vocal de Thomas evidencia uma das canções onde os Radiohead mais estão a vontade nesse disco. Recriando dentro da própria sonoridade que eles inventaram pra si, o cunho de originalidade que lhes é caro.

Desde de Amnesiac o Radiohead vem trabalhando peças minimalistas ao piano. Canções como pirâmide Song, sail to the Moon, Videotape, mostram um Yorke dissonante ao piano, sempre buscando fugir dos velhos clichês de canções assim, sempre com compassos improváveis e pouco refrão, a influência do jazz é visível mas toda as belezas anteriores , as tensões, os medos, a angustia de não-ser ,deságuam na peça de rara poética  de "Codex".

No ambiente frio de Lotus,  Yorke é transportado (assim assim como Pull/revolving door e You and army) para uma contemplação imensurável. Ele mergulha numa nuvem, descansa, deita sobre as folhas sem machuca-las e ouve os compassos mais íntimos da natureza.

"Deslize suas mãos
Salte no final
As águas são límpidas
E inocentes
As águas são límpidas
E inocentes"

Canta thom querendo que nós façamos parte da experiência. Quase como de onde o ponto que paramos em Pirâmide Song (onde não havia mais nada a temer nem a duvidar) somos tocados por uma canção irretocável, uma orquestra comandada por Jonny Greenwood, pontua a beleza e a sensibilidade em forma de canção. Os rapazes de Oxford, donos de canções como Boolet Prof. I Was, Street espirit., No surprises, Desappear Completely, Scatterbrain, assinam mais um ato sublime no imaginário da poesia moderna. E tudo encerra-se entre pássaros, caindo a tarde ou chegando o outono em "GiveUpTheGhost"

O verso:
"Não me assombre, não me machuque
Não me assombre, não me machuque"

Repete-se pela canção inteira, cantando um yorke sabendo que logo acordará, logo terá que lidar com as razões que ditam as regras desse mundo,
logo seu sonho terá que da lugar ao que chamam de "realidade". O sentimento de não fazer parte de um todo mais uma vez eclipsia um artista inquieto, uma eterna busca quase espiritual por uma zona que não seja de conforto e sim de consolação, uma das bases e buscas de toda a poesia desse trovador solitário em todos os discos da banda. Yorke lagrima e nos prepara para a separação onírica em "Separator".

Encerrar bem seus discos sempre foi uma especialidade dos Radiohead.
Parece que a última canção sempre trouxe uma beleza a mais, um delírio e uma certeza que reafirma toda a obra.

E não foi diferente com Separator.

A banda toda retorna, Jonny Greewood experimenta tensões na guitarra, Enquanto Phil passeia numa andamentos só seu, seqüenciadores distorcem a voz de Yorke que parece estar em outra freqüência, distante, num conforto de alguém que viveu um sonho bom e vive a memória cheia de saudades sublimes que o fazem voltar sempre que quiser. Pelo caminho um solinho na guitarra do Jonny que depois cresce, tornando-se as asas invisível de Thomas, um Thomas de rosto afagado pelos ventos, que acordou de um universo só seus mas o que antes era um sentimento de desconsolo crônico agora pousa na sua retina a máxima que o sentir é eterno.

A arte está aí para isso, te fazer sentir de novo, te fazer acreditar que um sonho é possível num mundo onde o desalento recria a certeza da falta de encanto nas coisas vividas. O arranjo de guitarra no final é uma dos mais belos da discografia da banda e encerra em meio ao apelo do Thomas-poeta para acorda-ló da nossa própria realidade. Uma das grandes obras de artes da obra do grupo desde sempre.

"É como se eu estivesse caindo da cama
Depois de um sonho longo e fatigante
Finalmente me livrei do peso que carregava

Quando eu pedir de novo
Quando eu pedir de novo
Me acorde
Me acorde"

The king Of limbs é um passeio solitário pelo sonho de um poeta.
O sonho de um mundo como ele queria que fosse,  um sonho de alguém  que acredita nas relações entre homem e natureza, alguém que ainda sente o prazer irreparável de observar um flor, apreciar a beleza de um pássaro ou o correr de um rio, algo que perdemos em tempos de internet, relações banalizadas, amores descartáveis, arte que não comove apenas preenche o intervalo do almoço ou serve para nao causar tédio.

Um mundo que desbota aos poucos e onde fazer arte que não seja apenas por mera arte, requer paciência, trabalho, requer  certeza dentro de si que de alguma forma, uma obra terá alguma razão na vida de alguém.

Musicalmente o oitavo disco dos Radiohead abraça numa parte o Free Jazz de Alice Coltrane e o Krautrock do Faust, um passo a frente nos experiências anteriores, numa banda segura para não seguir fórmulas. Na segunda parte, o velho e inominável Radiohead, com sua dissonância, orquestrações e beleza, alguns loops e samples apenas como complemente, ao contrário do que andam afirmando, o disco tem pouca coisa de eletrônica, além de um fluidez e fragmentação orgânica que pode soar eletrônica em alguns ouvidos.

O Radiohead segue compondo obras primas e nos comove com sua sublimação absoluta.

O poder da sutileza em estado de graça dialogando com a natureza mais elementar.

Parabéns a banda por captar nosso tempo assim e nos entregar mais um documento.

Canções que serão milenares tanto quanto o carvalho que inspirou o título do disco.

O VERDADEIRO REINADO DA ARTE EM ESTADO BRUTO.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

The Eraser

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Thom Yorke

Disco: The Eraser (2006)

A voz sempre foi tratada como um instrumento à parte numa canção popular. Como aquela que guia a canção por dentro da melodia e a desenha pelos litorais dos nossos ouvidos. Mas poucos conseguem apenas dilui-la por sobre as camadas como se mais um piano ou um xilofone fosse, como Thom Yorke. Sua voz tem qualquer coisa de instigante, teatralmente lúdica, parece (e ele já confessou isso) que sempre está buscando novas formas em meio a abstração sonora de sua banda. Mas, Yorke precisava enfrentar seus fantasmas e pra isso nos entregou em 2006, uma pérola dos tempos modernos. The Eraser. Quem acompanha IDM e o chamado downbeat, sabe onde The Eraser está pisando, mas aqui temos algo mais além, temos um dos maiores compositores da sua geração numa performance intransferivel. Thom parece estar numa arena cyborg, lutando com máquinas fantasmas entre diálogos com cines negros, entre sopros nos corações dos nossos ouvidos que aos poucos vai aceitando a estranheza sintética dos bets se fundindo com o átomo sublime do vocal. Entre excêntricas paisagens pertubadoras, resquícios de confusos idioteques pelos caminhos dos becos existencias, onde apenas Thom Yorke sabe as senhas e os caminhos de volta. The Eraser é o disco de uma voz atormentadamente imcompáravel quando de uma beleza - densa beleza cinza, futurística e rara- falamos. ou como diz o próprio gênio:

It's all boiling over
All boiling over
Your little voice
Your little voice

 

Cymbal Rush

the eraser

Capa: The Eraser

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