RadioheadBrasil

Site Brasileiro dedicado ao Radiohead..

Performance da banda do TKOL no From The Basement

será lançado em DVD em dezembro

Fender Telecaster doada por Ed para Instituição

Com assinatura de todos os membros

Motion Picture

Radiohead artwork

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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hail to the Thief: documento do seu tempo

Estabilidade. Estabilidade. Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade inidividual."
Trecho de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
"Nossa unidade, nossa nação, é o sério trabalho de líderes e cidadãos em todas as gerações. E essa é a minha solene promessa: trabalharei para construir uma nação única em igualdade e oportunidade."
George W. Bush
"América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com a sua bomba atômica...
...Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?"

Allen Ginsberg

BRAVE NEW WORLD
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Final do século XX. O mundo é dominado pelo neoliberalismo. O signo da Globalização avança pelo planeta no mesmo ritmo frenético da grande teia mundial de computadores. A idéia de um mundo igualitário e harmônico é vendida com o mesmo entusiasmo do crescimento econômico e do alcance geográfico das novas tecnologias de informação.
Dezembro de 2000. Assume o poder da nação mais poderosa do mundo o filho de um ex-presidente, responsável pela manipulação de eleições na América-Latina e pela proliferação de ditadores e terroristas no Oriente Médio. A vitória é conseguida de maneira duvidosa, com fortes indícios de fraude eleitoral. Na pomposa cerimônia de posse do novo presidente norte-americano, a Marinha o saúda com o hino Hail To The Chief.
Setembro de 2001. Em Nova Iorque, na manhã do dia 11, acontece o maior atentado terrorista da história. Dois aviões sequestrados por terroristas de origem árabe se chocam contra as Torres do World Trade Center. Milhares de pessoas morrem sem saber o que estava acontecendo. A nação dos bravos e dos livres passa a viver sob constante medo e vigilância.
Março de 2003. Após meses de explicações, especulações e tentativas pacifistas, os Estados Unidos declaram guerra ao Iraque mesmo contra a posição das Nações Unidas. O país centro do chamado Eixo do Mal no Oriente Médio possuía supostas armas de destruição em massa que poderiam pôr em risco a segurança nacional e o controle do destino da nação ianque. As tropas invasoras assumem o controle do país.
Junho de 2003. O Radiohead lança seu sexto álbum, Hail To The Thief.

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O disco começa com 2+2=5, uma referência ao "duplipensar" de George Orwell em seu clássico Nineteen Eighty-Four. A canção começa com uma marcação eletrônica de fundo e a guitarra acompanhando o vocal de Yorke. Ele nos pergunta se realmente possuímos a coragem que dizemos ter: "Are you such a dreamer / To put the world to right?". A canção resume o pensamento dominatório dos sistemas que controlam o mundo contemporâneo, onde é mais vantajoso refugiar-se em casa do que confrontar o establishment. Thom Yorke, na pele de um simples cidadão, manifesta o medo, a prudência e a passividade, características do homem atual, são e comum: "I'll stay home forever / Where two and two always make five". Porém, é tarde demais. Ele já foi descoberto: "There is no way out / You can scream and you can shout / And it's too late now".

Pay attention!
Pay attention!
Pay attention!
Pay attention!
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De repente, a música assume uma intensidade avassaladora, como se estivesse correndo atrás daquele homem, como se não houvesse escapatória. A voz ordena que a autoridade suprema não seja nunca questionada e que a unidade estável seja mantida. Hail To The Thief.
Na segunda faixa do disco, o homem que anteriormente foi advertido é somente mais um cumprindo o seu papel passivo. A voz do comando ordena: Sit down. Stand Up. Ela alerta para o fato de que a qualquer momento toda a sua essência pode ser facilmente apagada: "We can wipe you out any time". No final da música a batida eletrônica assume o lugar do piano em um ritmo frenético, representando o tempo corrente, perfeito e inalterado, meticulosamente controlado. Tudo acontece. Nada muda.

The rain drops
The rain drops
The rain drops
The rain drops

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Em Sail To The Moon, o homem, absorto em seus pensamentos proibidos, avalia o presente com certo otimismo: "And maybe all the presidentes / Will know right from wrong". Nessa canção ele não é interrompido pela voz autoritária como nas últimas duas. Apenas um piano, que em geral no disco atua como agente humanizador em detrimento da eletrônica, que representa o pensamento sistemático e alienante. Em Backdrifts, o homem admite a condição de mero seguidor dos destinos traçados por aqueles que detém o poder. Todavia, como foi condicionado a isso, não há revolta, mas sim medo: "What the hell we've got nothing more to lose / One burst and we will probably crumble".

You fell into our arms
You fell into our arms

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Go To Sleep fala sobre a tentativa de se libertar do fardo que é possuir uma visão ampla da realidade. Tudo que o personagem quer é dormir e limpar-se dos pensamentos subversivos. Como em Admirável Mundo Novo (Brave New World, Aldous Huxley), os indivíduos que vivem sob condicionamento formam a linha de frente da evolução. Embora não tenha exata consciência disso, ele sabe que precisa se adequar para evitar a solidão excludente.
Where I And You Begin fala da distância entre as pessoas, desde que o medo em nome do bem comum passou a dominar o cotidiano dos sãos: "There's a gap in the between / There's a gap where we meet / Where I end and you begin again". O personagem, o homem que questiona, tem consciência da sua posição e da inevitável solidão: "I am up in the clouds / And I can't and I can't come down / I can watch and I can't take part / Where I end and where you start / Where you, you left me alone". A voz mais uma vez o ameaça.

I will eat you all alive
I will eat you all alive
I will eat you all alive
I will eat you all alive

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Em We Suck The Young Blood a voz que se faz ouvir é a do Grande Irmão, do controle, do poder. Ele pergunta se o homem se sente fraco, faminto e doente, e se ainda mantém sua alma pura e doce apesar de tudo. Ele Controle quer o seu sangue a todo custo, antes que contamine os demais. A música consiste basicamente em um piano e uma marcação de palmas em ritmo lento, dando a idéia de marcha, de avanço. No meio da canção uma tempestade sonora acontece, simulando o ataque ao indivíduo de alma pura, o câncer da civilização.
A oitava faixa, The Gloaming, é uma justificativa dos atos do poder por quem o posui. Ele se dirige a quem ainda se sente chocado por tais atos, e afirma que a ordem deve ser mantida a todo custo. "Murderers, you're murderers / We are not the same as you" - argumenta. Atentados terroristas e ações de violência injustificada configuram-se o verdadeiro crepúsculo da humanidade. A música, a mais eletrônica do álbum, serve como uma perfeita introdução para There There.

They will suck you down to the other side
They will suck you down to the other side

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O começo se dá com uma batida de tambores sincopada e a guitarra acompanhando o ritmo. There There é a viagem que o homem de coração puro faz até o mundo real, uma paisagem que não lhe é familiar: "I go walking in your landscape / Broken branches / Trip me as I speak". A voz do comando, que o acompanha nessa viagem explica o significado do mundo que conhecemos: "Just cos you feel it / Doesn't mean it's there". Não somos nada, e nada é real. Sabemos apenas o que querem que saibamos. A voz no entanto alerta para não cruzarmos essa linha: "There's always a siren / Singing you to shipwreck (Don't reach out, don't reach out)". O homem de estranha a desconhecida paisagem: "Why so green and lonely? / Lonely, lonely...". E no final conclui, ciente da sua e da nossa insignificância: "We are accidents waiting / Waiting to happen". Ele não está condicionado a cruzar a linha. Na verdade ninguém está.
Desolado, na música I Will, o homem promete a si mesmo, impotente: "I won't let this happen to my children / Meet the real world coming out of your shell". Conhecer o mundo real foi uma experiência traumática. Ele lembra da infância, enquanto tudo era mais simples e seguro. Agora, é apenas alguém que sabe demais e que paga por isso. Está sozinho e seu futuro é incerto. Quer voltar a época quando 2+2 era igual a 5. A canção com base apenas em um piano é curta e comovente.
Em A Punch-Up at the Wedding, a voz volta a falar com ele. Reclama de sua ingratidão: "I don't know / Why you bother / Nothing's ever good enough to you". Ela manifesta sua raiva contra o homem: "You had to piss on our parade / You had to shred our big day / You had to ruin it for all concerned". Acusa-o de hipócrita e oportunista, e o deixa sozinho mais uma vez.

Don't infect me with your poison
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Myxamatosis, a 11ª faixa do disco, é tão confusa quanto bizarra. O personagem, na tentativa de justificar seu desvio de rumo, diz que está doente: "...that wasn't my intention / I did it for a reason / It must have got mixed up / Strangled beaten up / I got myxamatosis". O caótico poder da guitarra e o ritmo incomum da música contrastam com a serena faixa seguinte, Scatterbrain. "Yesterday's headlines blown by the wind / Yesterday's people end up scatterbrain". Tudo é descartável, ninguém é importante.
A última, A Wolf at The Door, é uma lista dos maiores medos e ameaças que sofremos no paranóico mundo contemporâneo. "I keep the wolf from the door / But he calls me up / Calls me on the phone / Tells me all the ways / That he's gonna mess me up / Steal all my children / If I don't pay the ransom". O pavor despertado pelo inimigo oculto, aqui representado na figura de um lobo, justifica a violência que o vocal de Thom Yorke transmite na canção. Ela termina com o narrador aceitando passivamente as imposições que a atmosfera de incerteza e pânico lhe trazem. Agora, ele não está mais sozinho. Não há revolta, não há saída.

So I just go.
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A poesia do Radiohead, tal qual a literatura de Huxley e Orwell, não oferece solução. Em Hail To The Thief, nada é linear, estável, delimitado. Apesar de ser o trabalho de mais fácil assimilação e de conceito mais bem definido desde The Bends, o álbum é um legítimo e definitivo documento do momento atual, uma época obcecada por estabilidade e controle. E talvez não haja mesmo solução. Talvez estejamos fadados a viver em um mundo projetado por aqueles que o manipulam. Todavia, embora nossa condição a princípio pareça destinada apenas a um papel coadjuvante, as letras do Radiohead nos fazem crer que em essência ainda somos seres que anseiam desesperadamente por libertação. Porém, toda grande mudança ameaça a estabilidade, causando medo. O medo é a lei que rege as diretrizes da política do Grande Irmão de Orwell e da América de Bush. O Radiohead consegue assim, na condição de uma das maiores bandas contemporâneas e de toda a história, com seu novo álbum, chegar a um patamar elevado de percepção e sublimação da realidade, que extrapola em muito as fronteiras do sucesso artístico.

 

 

Essa matéria salvei nos meus arquivos na época do lançamento do disco e perdi o endereço original dela, o autor me também é desconhecido.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

RADIOHEAD: UMA BANDA COM AÇÕES SUSTENTÁVEIS

Por: Editor

Nesta semana uma das bandas alternativas mais populares do mundo, Radiohead, fez a festa de quem curte as músicas da banda e que gostas de sacudir o esqueleto lançando TKOL RMX 1234567. O projeto, de nome estranho, é um CD duplo que traz o remix do álbum The King of Limbs, lançado em fevereiro e assinado por grandes nomes da música eletrônica como Jamie xx e Caribou. Mas, um pouco antes do lançamento, a banda de Thom Yorke deu aos fãs um grande presente ao anunciar – tardiamente –  a turnê de Kings of Limb, para o próximo ano.

Quem conhece o trabalho do Radiohead e sabe o quanto a banda é engajada com questões de sustentabilidade fica duplamente feliz já que cada show é planejado para não causar impactos ambientais. Isso porque, ao invés de perder tempo com pedidos bizarros, uma das exigências da banda ao sair em  turnê é que os shows sejam livres de emissão de carbono.

Quanto a isso eles sempre são atendidos. A prova maior é que, se o transporte público for insuficiente para atender a demanda dos shows e isso obriga milhares de fãs a usar o próprio veículo, eles não pensam duas vezes para recusar a apresentação.

O Radiohead tem essa moral porque os membros da banda dão o exemplo: o transporte dos materiais de cenografia e montagem de palco, sempre que é possível, é feito por vias pluviais ou marítimas. A própria banda evita – quando a distância permite – utilizar aviões e, dentro da cidade onde moram, procuram fazer seus deslocamentos por meio da nossa velha e sustentável amiga bicicleta.

Toda a estrutura do palco é sustentável. Segundo o Planet Green o grande lance já começa em algo super simples mas que, no fim das contas, faz uma diferença enorme: todos os envolvidos na turnê utilizam sua própria garrafinha de água. O material  utilizado no palco é reciclado e as lâmpadas que dão aquele show à parte são micro-lâmpadas especiais e consomem apenas 10% de energia em comparação com as lâmpadas convencionais.

Com toda essa bagagem mesmo que você não curta o som do Radiohead é obrigado a reconhecer que os caras têm atitude rock n’ roll na intensidade máxima. Basta lembrar que foi a primeira banda a disponibilizar um álbum inteiro – o premiado In Rainbows – na internet e deixar que os fãs decidissem quanto queriam pagar.

Inovação e sustentabilidade? O Radiohead ama muito tudo isso e o Mudarock também!

 

Excelente Matéria encontrada em> mudarock

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Kid A

 

Como as décadas finais de pelo menos dois séculos anteriores, os anos 1990 foram marcados por uma retrospectiva dos 90 anos anteriores, aglutinando em células compactas de conhecimento

tudo aquilo que a centena de anos completa ao final da década quis dizer pausadamente. Mas a década que encerrou-se no final do ano passado foi caracterizada por outros sabores: a ironia e o excesso de informação. Associadas, estas duas qualidades despem a grande verdade sobre a sociedade capitalista às vésperas do novo milênio, um paradoxo em escala planetária que nos emburrece à medida que mais aprendemos. O saber está no ar, mas ninguém está interessado em mostrar como usá-lo.

Na música pop, estas características foram detectadas pela primeira vez pelo U2. Embora ecos destas qualidades já viessem cantando os 1990 por caminhos alternativos na década anterior (como os discos Paul's Boutique, dos Beastie Boys; Pills'n'Thrills and Bellyaches, dos Happy Mondays; e Into the Dragon, do Bomb the Bass), foi apenas com Achtung Baby que elas se encontraram com o teor que filtrou a década. Ali estão a paixão pelo virtual frente à realidade ("Even Better than the Real Thing"), referências à história do rock ("Who's Gonna Ride Your Wild Horses?", "One"), paranóia ("The Fly") e um misto de expectativa com esperança ("Zoo Station"). "Você? Você estava falando do fim do mundo", debochava Bono enquanto mudava radicalmente o visual de sua banda, abandonando a pose de sacerdotes do rock e entrando num terreno estranho à sua antiga religião: a música eletrônica, um carnaval de ritmos e cores fundido com o preto e branco ríspido do fotógrafo Anton Corbijn. O disco de 1991, no entanto, não funcionava sozinho. Vinha acompanhado de uma extensa turnê dividida em três fases (Zoo TV, Zooropa - que acabou virando disco - e Zoomerang), que assistia a banda entre dezenas de monitores de TV e automóveis pendurados no palco, numa clara alusão à deselegância burra pré-colapso do capitalismo. Numa fantasia de caubói prateada, Bono rasgava notas de dólar enquanto, como pastor evangélico, anunciava que teve "uma visão": "TELEVISÃO!", berrava frente ao câmera que, do palco, registrava tudo pelas telas espalhadas no show. Juntos, a Zoo Tour e Achtung Baby deram o tom "rir pra não chorar" que acentuou-se nos anos 90.

A ironia virava fórmula e todas as mídias passaram a usá-la, primeiro o cinema, depois a TV, caindo no gosto popular e reverberando, assim, por todas as formas de comunicação. Falar a verdade era constrangedor demais - ou melhor, falso demais -, por isso era melhor fingir querer dizer justamente o oposto, finalmente, desta forma, atingindo seu objetivo. Passamos a ler textos que nos fingiam contar o contrário do que realmente queriam dizer, ouvir músicas que ridicularizavam o hábito de ser humano, ver filmes cujo verdadeiro tema só é desvendado da metade para o fim, contradizendo tudo que havia sido visto desde o começo. A propaganda passa a se ridicularizar na tentativa de ganhar crédito com o consumidor. Tudo é muito falso, todo mundo sabe; então porque não assumimos falsamente esta falsidade? Era isso que a ironia nos anos 90 significou: uma espécie de afirmação de identidade cultural às avessas, corrompendo nosso entendimento da realidade numa mão dupla, que ao mesmo tempo que acende uma vela pro sim (afirmando algo), acende outra pro não (ridicularizando aquilo que está sendo afirmado, simultaneamente). Sem um, nem outro, caímos na década do "tanto faz", em que as pessoas passaram a fazer exatamente o que o capitalismo queria, plugando-se às necessidades consumistas como se estas fossem responsáveis pelo bem estar espiritual - não material. Até Alanis Morrissette, em seu maior hit, perguntou: "Não é irônico?".

É neste cenário que o Radiohead surge como força disposta ao desequilíbrio. O grupo surgiu na Inglaterra no começo dos anos 90, mas só conseguiu fazer sucesso nos Estados Unidos, graças ao hit "Creep" (do LP Pablo Honey, de 93), ganhando primeiro o público, depois a crítica americana. "Você é tão fucking especial", sussurrava o vocalista Thom Yorke, "mas eu sou uma coisa, sou um esquisito". Só ganhou algum reconhecimento em seu país ao se levar mais a sério em The Bends, de 94, onde deixavam de falar de relações cotidianas para contemplar a sociedade moderna como um todo, num dos primeiros discos conceituais da década (tantos viriam depois). O grau de importância do grupo foi crescendo tão logo eles ganhavam intimidade como músicos, contemplando possibilidades diversas a partir do formato três guitarras (Yorke, Jonny Greenwood e Ed O'Brien), baixo (Colin Greenwood) e bateria (Phil Selway). Reinventando o rock clássico como fazia o indie rock americano na metade da década passada (com uma certa dose de ironia, claro), o Radiohead chamava cada vez mais atenção.

Até que atingiu seu auge com o clássico inato OK Computer, ácida descrição da sociedade capitalista sem ironia nenhuma. Ao reproduzir as normas do novo dia-a-dia sem se preocupar com sentido lírico (quase todas as composições do disco de 97 empilhavam referências e situações sem o comprometimento com o sentido), ia nos vestindo com a roupa do andróide paranóico que a vida consumista de hoje nos transformou. O disco também antecipava a invasão techno ao mercado que aconteceria naquele mesmo ano (com os discos Dig Your Own Hole, dos Chemical Brothers; e The Fat of the Land, do Prodigy), mas apenas nas entrelinhas - a produção sci-fi de Nigel Godrich deixava apenas um ar eletrônico no álbum. Sem contar a música em si, as progressões guitarreiras que mudavam a atmosfera das canções, dando uma dinâmica inédita ao som do grupo. Incensado pela crítica, OK Computer tornou-se padrão de excelência do rock dos anos 90.

E o que fazer depois disto? Depois que toca-se o céu, resta outro rumo senão a queda? O grupo passou a dedicar-se a uma turnê em que viu-se condicionado ao máximo do capitalismo que criticavam. Laureados como a mais importante banda de rock do mundo, o Radiohead tentou lançou um EP (Airbag / How Am I Driving?) e dois vídeos (a coletânea de clipes 7 Television Commercials e o homevídeo Meeting People is Easy) na tentativa de esgotar a responsabilidade em torno do próximo álbum. Em vão: cada produto lançado era recebido como prova que o sucessor de OK Computer vinha aí.

A solução seria eliminar os parâmetros conhecidos e assim o grupo começou a trabalhar: Thom Yorke desencantou-se com a melodia e passou a procurar alternativas rítmicas. Ed O'Brien queria um disco curto, enxuto, com canções simples e diretas. Colin preferia um álbum mais aprofundado na eletrônica, mas sem soar "techno". Kid A (EMI) é o produto das cinco (seis, contando o produtor Nigel) perspectivas de como o grupo fugiria do formato OK Computer.

O resultado é um disco árido, tenso, pós-rock, ermo - adequado para o ano 2000. Enquanto a quantidade de informações contida no álbum anterior dava um aspecto de poluição visual ao disco, o novo álbum elimina recursos visuais em favor de uma música sem rosto, sintética, ciborgue, futurista. Mas enquanto o futuro de OK Computer era hi-tech e bucólico, o de Kid A é vago e ameaçador, como se o espírito de máquinas mortas sobrevoasse por cima de desértica paisagem pós-apocalíptica.

O disco abre com teclados lunares que reverberam ondas eletromagnéticas que funcionam como uma canção de ninar por onde Thom Yorke pode improvisar apaixonadamente a letra. "Tudo está no lugar certo", ele canta ao começo do disco, repetindo os versos à medida que a canção se robotiza, cada vez mais. Entra a faixa-título, novos teclados (e caixa de música marcando o andamento, ao lado de uma bateria de bebop) descortinam o caminho para a entrada do vocal, um zumbido metálico que com certeza canta algo, mas em idioma indistinguível. A voz de Yorke é distorcida por um aparelho pré-histórico chamado Ondes Martenot (usado na trilha de Star Trek) e remete ao Menino A, o primeiro clone humano, como reza a mitologia radioheadiana.

Esta forma carinhosa que o grupo se refere à pioneira cópia de DNA humano posta em prática num laboratório (que poderia se chamar qualquer coisa mas é reconhecido com uma intimidade familiar) torna possível outro paralelo com Stanley Kubrick, o maestro cineasta cuja pompa e pulso firme à direção, já que OK Computer remetia instintivamente a 2001 (quando a máquina contra-ataca). No novo disco, o Radiohead contempla A.I., a ode não-filmada do cineasta à robótica, em que ele assume que as máquinas são herdeiras do legado humano, nossos descendentes. O grupo vai além e pensa no clone como descendente, a máquina perfeita projetada pela natureza e reprogramada de acordo com nossa vontade. Mas que vontade? Racional ou instintiva? O grupo deixa a resposta em aberto, por enquanto.

"The Nation Anthem" nos apresenta ao baixista da banda, Colin Greenwood, que puxa um groove funk pesado que escurece mais ainda à entrada de um time de metais reverenciando os graves pesos-pesados de John Coltrane. Em falsete, Yorke canta a vontade e a disposição de mudar, que aos poucos impregna o inconsciente coletivo: "Todo mundo por aqui / Todo mundo vai parar aqui / O que está acontecendo? / (...) / Todo mundo vai parar aqui / Todo mundo vai parar o medo / O que está acontecendo?". Ao citar literalmente o nome do mítico disco político de Marvin Gaye (What's Going On? - O que está acontecendo?), o grupo nos lembra que os tempos atuais são tão (ou mais) interessante que os anos 60 que inspiraram Gaye a se perguntar sobre a ordem mundial. O grupo prega decisões coletivas como a melhor forma de ir contra o individualismo robótico e passivo de OK Computer. Não é nenhum pouco diferente do que a simbólica luta anti-FMI / OMC / Banco Mundial que já nos deu notórias batalhas como em Seattle (no ano passado) e Praga (semana passada).

"How to Disappear Completely and Not Be Found" finalmente apresenta os violões, enquanto o vocalista nos lembra que o filme Matrix é na verdade uma metáfora da nossa situação atual: "Eu não estou aqui / Isso não está acontecendo", balbucia Yorke, enquanto o disco vai ficando cada vez mais lento, atingindo seu ponto máximo de estática na instrumental "Treefingers", entrando vagarosamente no terreno gelado das brancas vibrações eletrônicas de Brian Eno. "Optimistic" poderia ser irônica caso se referisse à sociedade (ainda mais com este título - "otimista"). Mas a paisagem que o grupo vê é pós-civilização e o otimismo a que se referem é um abandono das tecnologias, uma volta à natureza, onde a lei da selva - perfeita - reina soberana: "Os peixes grandes comem os pequenos", canta a letra sobre guitarras psico-metálicas que poderiam ter saído de LED ZEPPELIN III, "tente o melhor que você pode / O melhor que você pode é o suficiente". "In Limbo" parece apenas descritiva, ecos e guitarras dissipando conforme a paisagem é mostrada: "Estou do seu lado / Não há onde me esconder / Estou perdido no mar / Você está vivendo uma fantasia / Não se importe comigo", num novo ataque ao individualismo.

O ritmo marcial technopop que soa através de "Idioteque", marcando um compasso eletrônico por onde a sociedade do desperdício é cruelmente descrita, em vocais familiares (mas entrelaçados de uma nova forma) de Thom Yorke: "Deixa eu te dizer que você é o primeiro / Eu vou rir até minha cabeça sair / Eu vou engolir até explodir / Já vi muito / Já vi tudo / A era glacial está vindo". Descreve os seres humanos como dinossauros às vésperas da extinção, porque já ultrapassaram o limite de consumo de recursos naturais. O sotaque techno (proveniente da atual obsessão do grupo: a gravadora Warp) só ajuda a entender a crítica do grupo, que vai de encontro à letargia e o subsequente estado de automação que o ser humano aos poucos vai se submetendo - o ponto central de OK Computer. Em "Morning Bell", o grupo volta ao campo da melodia do último álbum (até certo ponto ignorado no novo disco) e como um aparelho de TV ligado durante um bocejo matinal despeja informações de forma vaga e desencontrada - "Eu não conheço o assassino", "Onde você estacionou o carro?", "E todo mundo mente para mim", "Todo mundo mente nas pesquisas" e o golpe final "Todo mundo quer estar lá / Todo mundo quer ser o mesmo / Andando, andando, andando, andando". A vida moderna é um tédio.

Kid A termina com a melancólica "Motion Picture Soundtrack": "Pare de mandar cartas / Cartas sempre queimam / Não são como os filmes / Que nos enchem de mentiras brandas", divaga o vocal triste e tímido do final, que enuncia um clima de felicidade mágica à Walt Disney (orquestras cheias de harpas dedilhadas) por baixo do tremor original do álbum. Estamos no meio de uma cratera, depois da bomba explodir. Esta bomba é o século 20, que se engole cada vez mais à medida que chega ao fim. Quando 2000 passar, zera tudo. É contemplando este futuro que Kid A sorri. É um sorriso estranho, não-humano, pensativo. Mas feliz e esperançoso, como há muito não víamos.

Matéria encontrada em : Trabalho Sujo

sábado, 8 de outubro de 2011

Review TKOL RMX 1234567 via Sputnikmusic

Excelente review do disco de remix lançado pela banda, no > sputnikmusic. Disco que reúne o material lançado em The King Of Limbs em versões de artistas da vanguarda eletrônica.

Por: Blair Chopin

Summary: I'm playing with myself/Baby's got the bends/Let down and hanging around/Rats and children follow me out of town/Tonight we ride ghost horses/I won't let this happen to my children/Words are blunt instruments/Don't haunt me.

3 of 4 thought this review was well written
The remixes to Radiohead’s “The King of Limbs” are just as ironic as they are brilliant. The whole release is ironic because Radiohead have essentially made a career out of remixing their old sounds. “The Bends” was really just a mature remix of “Pablo Honey,” ”Ok Computer” was a progressive, low-fi, and borderline grungy remix of “The Bends,” “Kid A” was the techno, electronica, psychedelic remix of “Ok Computer,” “Amnesiac” was basically a more experimental version of “Kid A” with new lyrics, glitches, and hooks, “Hail To The Thief” was a 21st century hard rock yet techno influenced remix of “The Bends,” “In Rainbows” was a remix of all Radiohead’s previous albums and was basically more of a greatest hits album that it was a cohesive album (as if that is actually a bad thing,) and “The King of Limbs” was Radiohead drowning themselves in the sounds of “Kid A” and “Amnesiac” but presenting them in a laid back, reflective, and often misunderstood way.


Maybe the genius of Radiohead is found in their uncanny ability to reinvent themselves on every album or maybe they have just figured out something that 99% of musicians before them never had the common sense to figure out. Maybe Radiohead have found that the key to defining two decades, the key to making memorable albums, and the key to not sounding the same on every album is just tinkering and remixing the sound of the previous albums. Maybe all of Radiohead’s classic albums are just cleaned up versions of old recycled riches, maybe all of Radiohead’s songs that we view as 21st century commentary are really songs that used to be about Thom Yorke hating pop music in 1993, and maybe every progression is more logical and simple instead of experimental and generation defining. Maybe “TKOL RMX 1234567″ was just Radiohead’s way of coming out of the musical closet for good.


“TKOL RMX” is Radiohead’s way of giving the middle finger to anyone who thought the remixes I discussed earlier would ever stop, it is a slap in the ass to anyone who thought Yorke’s vocals were too distorted on “The King of Limbs” or that the album did not have enough guitars, it is a finally coffin to anyone who thought Radiohead would go back to being influenced by Blur. The remixes to the songs on the “King of Limbs” give them a new identity just as much of they give them a change of sound. Every remixed song gives us the feeling of a man who is overwhelmed, apathetic, and angry towards modern politics and economics (“Ok Computer and Hail to The Thief,”) a man who is trying to fall in love with the world but just ends up hating himself (“In Rainbows,”) a man in a mid life crisis that is so bad that it has become an apocalypse (“Kid A” and “Amnesiac,”) and a man who really just wants to be a rebellious boy again (“Pablo Honey” and “The Bends.”)


So even though the sound of the remixes of “The King of Limbs” might not be that much more experimental than the actual synthesized and distorted studio album, it still serves as an effective remix album in a way that no remix album has really done before it. The contributing artists present TKOL in a way that is open: open in its sound, open in a way that every song can be interpreted, and most importantly open in the way that it sounds like many different creative artists worked on this album instead of just one. This openess leads to a remixing of the important themes and soundscapes on just about every Radiohead album: the themes and sounds that made us hate ourselves, the themes and sounds that made us feel like the world was going to end, the themes and sounds that made us question our government, and the themes and sounds that made Radiohead one of the greatest bands of our time. ”TKOL RMX” is basically a Radiohead greatest hits album that isn’t by Radiohead. It is a greatest hits albums by artists that understand that Radiohead’s career is about more than eight songs its about eight different experiences and themes with each album. Since the artist perfectly grasp this they have not only made a remix album but an excellent and effective homage to Radiohead’s groundbreaking career. A career that might have been based off remixes in the first place.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

SALGANDO AS FERIDAS

Em texto confessional, crítico da Revista O Grito! revela os meandros existêncialistas da apresentação do Radiohead no Brasil
Por Eduardo Carli de Moraes

[Parte 1: ALL THESE WEIRD CREATURES WHO LOCK UP THEIR SPIRITS ]

Elvis Costello brincava que “escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”, ou seja, uma tarefa inglória, difícil e talvez irrealizável, já que tentamos transpor para uma linguagem o que só pode ser comunicado em outra. O que “diz” um solo ou uma melodia é indizível em mil ou um milhão de palavras escritas. Do mesmo modo como os místicos retornam de seus “transes” incapazes de falar um “a” sobre os mistérios que desvendaram, é duro achar no dicionário os termos oportunos para descrever as sensações que só os poderes mágicos da música são capazes de desencadear em nós. Quando o desafio é escrever sobre o Radiohead, que acabou de passar pelo Brasil pela 1a vez em shows antológicos no Rio e em São Paulo, o enrosco parece até se agravar. Pois, mais que um show, este é um daqueles acontecimentos existenciais que nos deixam emudecidos. Estarrecidos. De almas boquiabertas. Penando para entender algo que é tão maior que nós e que acontece num domínio além da razão e da linguagem.

Ficamos batalhando com as palavras, tentando verbalizar uma experiência que transcende em muito o mundo verbal-racional, e sabemos, de antemão, que seria impossível transmitir com letrinhas uma avalanche sensorial e uma jornada sentimental tão inefável como aquelas que nos deu a banda inglesa. Perturbador, angustiante, surpreendente, hipnótico, desolador e infinitamente fascinante: só amontoando adjetivos hiperbólicos pra dar uma vaga idéia das sensações que estão em jogo num show do Radiohead!

Thom Yorke: “quem é esse homem?”, me pego perguntando, e estou certo de que não sou o único. E quem é que ousa decifrar esse mistério? Num ser tão complexo, de alma tão vasta e cheia de nuances, convêm entrar aos tateios, com calma, sem querer respostas fáceis, deixando de lado rótulos e preconceitos, para se aventurar no labirinto íntimo de uma criatura conturbada e genial. Talvez ele, vida afora, já tenha sido taxado com todos os termos pejorativos com que os normopatas denigrem a imagem dos que são diferentes da média: creep, weirdo, freak, loser, nerd, louco – e por aí vai, que a maledicência humana não tem limites. Um show do Radiohead, no entanto, faz com que a gente se pergunte: não é extremamente tênue a linha que separa o louco do gênio? Um “desajustado social” não está, muitas vezes, perto de se tornar um visionário que possui um olhar muito mais são do que a dos ajustadinhos? Este homem, que alguns podem ver como um compêndio vivo de dúzias de patologias psíquicas, não seria, na verdade, um dos artistas mais brilhantes de nosso tempo e uma das mais lindas vozes que já tivemos o prazer de ouvir com nossos tímpanos deliciados?…

O brilhante crítico de rock Simon Reynolds, no livro Beijar O Céu, comenta: “Se o Radiohead é um caso de ‘ame ou odeie’ – e eles parecem induzir reações violentamente polarizadas – muito disso se deve à voz de Thom Yorke, a lástima que são seu tom e textura naturais. ‘Deprê’, ‘chorão’, e ‘torturado’ são os tipos de adjetivos lançados pelos que o hostilizam. Os fãs, em comparação, tendem a falar em ‘bela tristeza’. Essa resposta dividida lembra como Morrissey dividia os ouvintes em 1983, entre aqueles que consideravam sua voz um néctar para o ouvido e os que a achavam irritante como passar a unha na lousa.”

Verdade. Mas taxar a música do Radiohead de “deprê” e pensar que esse rótulo simplista dá conta de descrever todo o caleidoscópio de abismos, céus, vertigens, decolagens, quedas e montanhas-russas emocionais que a banda nos causa é muita rasidão.

É verdade que talvez não nos surpreenderíamos muito se, qualquer dia desses, os jornais do mundo anunciassem de repente que Thom Yorke, no rastro de Cobain, tornou-se o mais novo rock star suicidado que vai-se da Terra deixando uma multidão de órfãos desconsolados. Mas talvez é isso o que faz essa música ser tão comovente e angustiante: justamente essa sensação que podemos ter, ouvindo Radiohead, de que a morte de Thom Yorke sempre foi e é uma iminência. Há certas músicas tão aflitas que sentimos que aquele homem, que as canta, está por um triz – o túmulo aberto já o espera e tudo o que ele precisa é de um empurrãozinho para ali cair…

Chega a ser quase um choque notar que ele é um sobrevivente e que provavelmente vai continuar no reino dos vivos ainda por muito tempo. Ele parece fazer arte para não morrer, e não morrer somente por ter a arte como aliada e como tábua de salvação. Ele parece fazer música para não sufocar, agarrando-se a ela como um asmático à sua bombinha de oxigênio. E é esse tipo de expressão aquela que mais nos comove: sabemos que ele não está de brincadeira e que essa criação, para ele, tem uma importância existencial incomensurável.  Talvez por isso o Radiohead seja um oásis de autenticidade num mundo pop saturado de lixo fake e Thom Yorke uma das fontes mais puras de emoção genuína em meio a tantos corações enregelados e brutos.

[Parte 2: ICE AGE COMING, ICE AGE COMING!]

Os “papas da música eletrônica”, os alemães do Kraftwerk, já devidamente consolidados na história do pop como cruciais precursores, ficam parecendo ninharia em contraste com o Radiohead: dá para reconhecer a importância histórica que tiveram, mas não podemos evitar a sensação de que foram superados. Soam hoje como um Atari perto de um Playstation III ou um vinil ao lado de um iPod. Com seu kraut-rock burocrático, mecânico e gélido, onde o artificialismo soterra qualquer sonoridade mais cálida e genuína, o Krafktwerk é a música que faria o planeta Terra se fosse completamente dominado por robôs e computadores, com a raça humana e sua voz subjugados e silenciados para sempre. Apesar de ser possível dançar ao som de Kraftwerk, essa música não soa nada hedonista: ao invés de convidar à farra, os caras parecem instigar uma reflexão sobre a natureza da tecnologia e nossa relação com ela. Estaremos de fato no controle ou seremos derrotados e barbarizados por nossas próprias criações, como sugeria toda a paranóia de Matrix? O levante dos robôs tomará conta também do ramo da música?

O Kraftwerk é uma profecia tenebrosa do que seria o futuro humano se a Tecnocracia vencesse a Batalha Final. Profecia, aliás, que vem sendo comprovada pelo andar da carruagem dos tempos! É música que parece provir de algum filme sci-fi distópico e desesperançado, onde só as máquinas fariam música e o coração humano não mais cantaria (muito menos os rouxinóis!). A imobilidade dos membros da banda no palco, como se fossem meros empregadinhos assalariados de PCs , notebooks e sintetizadores, é um símbolo de uma humanidade desumanizada e mecanizada que não serve mais pra muita coisa além de apertar botões em um controle remoto. Neste inferno de gelo de batidas repetitivas e desumanas chegamos a rezar por um solo de violino ou uma voz de mulher, doce e melodiosa, que nos salve de tanto negrume e tanto ritmo sem doçura.

E não foi à toa que a organização do festival escalou o Kraftwerk para abrir o show do Radiohead: quando os ingleses subiram ao palco, não deu pra sentir nenhuma “ruptura” radical entre as duas bandas. Era como se fossem da mesma laia, da mesma turma, da mesma família – como um avô antiquíssimo comparecendo ao ritual de consagração de seu neto mais brilhante. Kraftwerk abrindo para o Radiohead é um emblema muito simbólico: os precursores alemães, vindos dos primórdios do pop com sua visionária tosqueira tecno, abrindo alas para os ingleses que, a partir dos anos 90, tornaram-se a mais fina vanguarda tanto do rock quanto da eletrônica mais underground – sem nunca terem esquecido de reconhecer a dívida que tinham com aqueles que abriram antes caminhos e atalhos. Um show desses mostra que chamar o Radiohead de uma “banda de rock” é uma impropriedade, ainda mais considerando que nesta década que se acaba em 2009 a ênfase principal deles foi na Eletrônica Experimental e não nos guitarrismos característicos do brit-pop.

Simon Reynolds comenta que, na fase pós-OK Computer, “saturado de música contendo guitarras e voz, Thom Yorke adquiriu todo o catálogo da Warp e começou a comprar discos obscuros de IDM (Inteligent Dance Music) pela internet. Por muito tempo durante as sessões de Kid A ele tinha perdido o interesse por melodia, explorando apenas textura e ritmo.” O Radiohead, depois de ter levado o britpop até seu pico, cometendo um clássico inigualável em OK Computer, afundou-se num outro mundo: o sentimentalismo deu lugar a uma certa “serenidade” e o experimentalismo tomou conta e chutou pra muito longe qualquer migalha de comercialismo. A banda que antes dizia-se influenciada por R.E.M., Joy Division, Elvis Costello e Talking Heads começou a desejar ser como Aphex Twin, Autechre e Tricky. Penetrando cada vez mais no deserto, longe dos holofotes do pop, Thom Yorke saturou sua alma com audições de Charles Mingus e Miles Davis e chegou a inventar um jazz dos infernos para a era da eletrônica (”The National Anthem”).

A era glacial está chegando e o Radiohead surge sugerindo: “throw it in the fire!” (”taque-a no fogo!”) Os versos de “Idioteque” são sintomáticos: ela, uma das músicas mais saturadas de eletrônica que a banda já compôs, traz ao mesmo tempo a melodiosa e pungente voz de Yorke em levante contra a frieza maquinal que vem em maré montante em nosso mundo de airbags, aviões e Ok Computers. É como se eles tremessem e sentissem calafrios com a chegada das nevascas, e a música fosse um levante do fogo contra as forças do gelo.

E foi esta a banda que desembarcou no Brasil: a banda experimental de vanguarda, radicalmente à frente de seu tempo, incoverizável e inimitável. A banda que não faz concessões e que consegue permanecer fidelíssima a uma proposta artística original e pra lá de relevante, ainda que tenha que conviver com todas as cruéis engrenagens do mundo do pop, do hype e do showbizz. Grandes hits foram tocados (”Creep” e “Fake Plastic Trees”), mas a essência do show foi outra: mais arte que entretenimento, mais perturbação do que conforto, muito mais uma tentativa de nos angustiar e estarrecer do que um espetáculo de entretenimento de massas.

“Acusações de falta de senso de humor são frequentemente lançadas ao Radiohead, mesmo considerando que em entrevistas eles são caras bem espirituosos”, comenta Reynolds. E de fato pudemos comprovar: um show do Radiohead não tem nada de “divertido” ou “simpático”, mas esse hedonismozinho de meia-tigela que motiva muita gente que frequenta shows parece uma besteira frente à Arte Provocativa e Dilacerante de Thom Yorke e companhia. “É exatamente o fato de o grupo ter invocado outra vez a seriedade art rock e sua rejeição à leviandade e à frivolidade que na verdade representa o diferente na cultura pop atual, impregnada que está de gritaria machona e sem cerimônia, de afetação heterossexual (de Robbie Williams a todos aqueles programas de nostalgia dos anos 1980) e de ceticismo desconfiado que banaliza a intensidade ou qualquer tipo de procura por uma visão”, sugere Reynolds. “Mas Yorke diz que consegue entender a demanda por entretenimento leve. ‘O motivo pelo qual as pessoas querem tanto escapar é que têm muita coisa do que fugir. De certa forma, a última coisa que qualquer um precisa é de alguém salgando as feridas, que é meio o que estamos fazendo.’

[Parte 3: BRUISES THAT WON'T HEAL]

À frente do Radiohead, Thom tornou-se mais um desses anjos caídos ou seres desajustados que vira “porta-voz de uma geração”. O sucesso estrondoso da banda mostra o grau extremo de identificação por parte de todos aqueles que se sentem excluídos, renegados, mau-amados, horrendos, angustiados, melancólicos, confusos e solitários – enfim, todos que conhecem alguma das diversas maneiras de se sentir “como se não pertencêssemos a este lugar”. O mundo visto como um purgatório gelado, um exílio onde padecemos mais do que nos deliciamos, à espera de uma libertação que não chega jamais, enquanto cantamos e dançamos como desesperados à beira de um despenhadeiro.

Os antropólogos e psicólogos de 2100 (ou além) talvez olhem para trás e enxerguem no Radiohead – que é a História da Cultura acontecendo perante nossos olhos e ouvidos! – um sintoma de uma época espiritualmente doente: saturada de confusão, desnorteamento e ruas sem saída de melancolia. Mas talvez notem também que ergueu-se desse pântano de desconforto um canto de beleza tão elevada, uma música tão profunda e comovente, que chegamos a pensar que, de fato, só faz boa arte aquele que sofre como um desgraçado. E que figura, na arte dos nossos tempos, é maior que Thom Yorke como um exemplo monumental do que significa “Angústia Existencial”?

O fato dessa música ser inegavelmente comovente, aventureira e instigante não impede, porém, que se coloque em questão a “mensagem” do Radiohead para o mundo moderno. Reynolds arrisca um comentário sociológico-político: “Yorke está literalmente dando voz a sentimentos contemporâneos de deslocamento, ausência de posse, apatia, impotência, paralisia; impulsos amplamente sentidos de se retrair e se desengajar que são reações perfeitamente lógicas e desanimadas à falência das políticas de centro, que asseguram que todos permanecem igualmente desencantados e aflitos.” O fanatismo exagerado não deve nos cegar contra essa dimensão “perigosa” do Radiohead: a de uma banda capaz de disseminar “apatia, impotência, paralisia”, como sugere Reynolds.

É como se o Radiohead fosse a banda-símbolo de uma geração nascida depois do crepúsculo das utopias, que pegou carona na ressaca do grunge sem ter mais ideais no horizonte. A fúria foi substituída pela tristeza, a revolta pelo chororô e a luta pelo cansaço. O espírito transformador e entusiástico do Maio de 68 francês, ou do Verão do Amor hippie, ou do levante punk de 77, estão completamente ausentes daqui. E, apesar do Radiohead ser, no fundo, uma banda de uma dimensão política considerável (nem tudo são lamúrias sentimentais: há toda uma vasta crítica cultural na arte da banda!), no fundo parece que sobressai um clima apático e melancólico ao invés de um espírito de pegar em armas (ainda que poéticas!) para derrubar os poderes malignos que nos prendem nas teias da tristeza. O Radiohead é o símbolo máximo de uma geração que, se fosse pra se tornar junkie de algo, seria de Prozac e não de Marx.

Sim: o Radiohead está aí para salgar nossas feridas, para abrir novas e para espalhar pelo ar da cultura um prolongado canto de lamúria, desencanto e protesto. É com certeza a banda mais complexa, fascinante, inspiradora e histórica de nossos tempos. Dá pra dizer sem muito exagero que o impacto que tiveram os Beatles no cenário cultural dos anos 60, o Led Zeppelin nos 70, os Smiths nos 80 ou o Nirvana no dos anos 90 é equiparável à influência do Radiohead no nosso zeitgeist. A angústia existencial e a longa batalha contra a melancolia, além dos temores em relação ao futuro tecnocrático digital, que nos transformaria em “andróides paranóicos” e robozinhos sem coração, dá o tom de uma arte que é o nosso retrato, o nosso abismo e a nossa comoção.

NOTA

Thom Yorke, na folga, foi fazer uma visita à cidade de Valparaíso (Chile), cidade litorânea colorida na costa do Pacífico, onde o poeta Pablo Neruda tinha uma casa etc. Abordado por um brasileiro (claro…) na rua, Thom Yorke se viu diante da pergunta “Nos shows da América do Sul, qual o momento que você achou mais importante?”. Yorke respondeu: “A hora em que o público cantou ‘Paranoid Android’ em São Paulo”.

No blog “Popload” .

RADIOHEAD: W E H O P E T H A T Y OU C H O K E

 

A fase In Rainbows do quinteto inglês Radiohead é seu momento mais alegre, era de maior doçura desde que a banda inglesa assumiu a cabine da nau que leva o rock pelos mares profundos da experimentação eletrônica, eletroacústica e orquestral. Aportados na fama, a banda ganhou leva de fãs e apontou um novo modo de criar música pop. O show apresentado no Just a Fest foi a perna latinoamericana da turnê madura de uma banda que não quer ser a maior do mundo, apenas é naturalmente atual.

Tudo fluiu para que o grupo encantasse: o dub opiáceo no intervalo, o suntuoso palco dórico de som cristalino (sem logotipia), a psicodelia política das bandeiras do Tibete, os tubos acortinados que, como bits gigantes decorativos, podia ser um vela flutuante, um mármore caramelizado, ou o mais puro vermelho sanguinário e estróbico. Tudo no show deles soa novo ou simplesmente estupefato. Os holofotes eram paradoxalmente lindos, em forma de brilhantes, ao mesmo tempo que o telão exibia closes viscerais do rosto de Thom Yorke cantando. Ou gemendo, porque a musicalidade do quinteto é tanta e a resposta do público era tão proporcional, que ele só precisava balbuciar para assumir tons de um barítono púbero.

Foram 20 e poucas músicas, mais de duas horas, três bis e todas aquelas que milhares de fãs queriam ouvir. "Creep" foi redentora e encerrou com o palco fluorescente e cores epilépticas. A banda e seu "you're fucking special" subvertem a o american dream roqueiro de banda perfeita, carismática e bonita. E isso sem bater continência a qualquer outro engodo que, assim como os EUA, a Inglaterra pode criar. Num só riff e gemido de "Lucky", Ed'O Brien engole e vomita tudo que Pulp, Strokes, Oasis, Blur e o britpop criaram em anos. Eles são tímidos e reservados, mas não humildes - apenas objetivos. "The best you can is good enough" (em "Optimistic") resume bem as sempre pontuais intenções da banda, enquanto guitarras flamejantes empurravam a tensão até uma explosão de luzes de lava e epopéia rocker, a bateria posta estratégicamente lá atrás para exigir mais de Phil Selway.

Ali na muvuca do meio, não muito longe de Thom mas também não no gargarejo, as reações eram múltiplas: berros e saudações, canto espontâneo - palmas, muitas palmas - e um bingo de fã pedindo, decifrando ou adivinhando o nome de alguma canção, o que criava uma mistura de verbetes extranhos como "subterranean telex just, just! JUST! paranoid android"... Nessa confusão do som pós-moderno os hits, momentos tão humanos e identificáveis entre artista e público. "Paranoid Android" consumiu um bloco inteiro com seu refrão detentor de guitarra arisca e suja, o back2back entre o público na letra certa e Yorke cantando inverso, toda uma missa Radiohead com ápice na moribunda e acústica "Exit Music": o céu estrelado, notas flutuantes e assustadoras de Jonny Greenwood e público em silêncio cantando o vale das almas. "Breathe, keep breathing"...

Em "The Gloaming" (o crepúsculo), a dicotomia rock e eletrônica da banda teve seu ponto alto, com o verde cor de bit, a base dubstep achatada e Thom Yorke cantando mais melódico e delicado do que o que se ouve no disco (Hail to The Thief, 2003), quando no final alguém na mesa ou sei lá onde picota a saída do microfone em diferentes caixas e lugares no espaço. Mais intervenção na inserção de rádio local em "The National Anthem", que Yorke explica em sua única e boa entrevista ao Brasil; e também na gravação do barulho e das reações da platéia perto do fosso, utilizadas como interlúdios e camadas de um modo que não se entendia de onde vinha aquele som. É como um grande "live act", em que tudo é construído e orquestrado ali. Como quando alguma guitarra geme e os bumbos são golpeados em marcha por Ed e Jonny, Thom dançando esquisofrênico e bizonho, até que num pulo ele para tudo o que acontece, a música acaba e ele no mesmo instante vai até a lateral e conversa algo muito que precisamente com alguém da produção.

Como dito, In Rainbows é doce, quase pueril, mas quente - em "House of Cards", o infalível verso "I don't wanna be your friend / i just wanna be your lover". Sobre a doçura, "Weird Fishes/Arpeggi" e "Reckoner" são tão possíveis de associação com a infância quanto "Fake Plastic Trees", conhecida aqui por uma campanha de TV para crianças deficientes. Em "Videotape", o espamo de delicadeza de Thom (que ele comenta na entrevista do Edgard Piccoli) abre para um dos encerramentos, o arpeggio de "Everything in It's Right Place" e a acidez do limão matinal.

E o show é mesmo como um choque, que frita o cérebro e arregala os olhos alma adentro a serviço da expressão humana, algo muito além de rock'n'roll, música eletrônica, "coisa de depressivo" e uma ou duas canções famosas. Para os iniciados, Radiohead ao vivo é a entrada tridimensional para um mundo sonoro e visual de questões conflituosas e canções dançantes e assustadoras - o que importa é que elas são intensas.

Os não-iniciados puderam entender mais a banda nestes shows brasileiros, e fica a apresentação de uma epopéia sonora e confusa, mas fascinante como o brilho mais intenso de um diamante luminoso em forma de LED, ou o simples e contagiante solo de guitarra dançante. Mesmo que não tenha despertado o deslumbre, a incompreensão é prova da amplitude artística da banda.

Para muitos do que saíram da Chácara do Jockey, algo muito sério acabara de acontecer. Ficou a sensação abobada de ver o espetáculo musical mais significativo da nossa geração, com todos os superlativos que sua alma disconexa possa arranjar. Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali.

Resenha de: Jade Augusto Gola

Site>rraurl.uol.com.br

Tudão

 

Tudo no seu lugar certo. Mesmo sem nunca ter ido a um show desses caras, eu já sabia que seria aquilo – a perfeição. De quem eu estou falando? No caso de alguém ter chegado agora de um retiro de dez anos no Círculo Polar Ártico, vale a pena dar um pouco mais de informação sobre nosso tema de hoje: a apresentação de uma das bandas mais esperadas por estas terras, que finalmente aconteceu neste fim de semana. Como diziam as manchetes de quando os Rolling Stones finalmente vieram ao Brasil, a espera acabou: o Radiohead tocou na sexta-feira (20) no Rio, e domingo (22), em São Paulo. Nessa segunda noite eu estava, digamos, “ocupado” – trabalhando. Mas a do Rio eu peguei, depois de um dia atribulado (minha sexta começou cedo em São Paulo entrevistando o estilista Marc Jacobs, e continuou numa usina de reciclagem de lixo no bairro do Caju, no Rio). Já no início da noite, de volta à Redação do “Fantástico”, eu olhava constantemente o relógio, torcendo para que a lista de coisas para adiantar não colocasse em risco a operação que eu tinha montado para ver o Radiohead no Sambódromo.
Morto do pescoço para cima – essa era a minha imagem olhando para a tela do computador da minha mesa, às 20h30: um zumbi tentando ficar livre de todas as obrigações, para sair do bairro do Jardim Botânico no horário limite de não perder o show - 21h30 (não cheguei a duvidar nem por um momento da pontualidade prometida – e cumprida – pelo Radiohead). Saí no último segundo possível, e, quando o táxi me deixou na boca da Sapucaí – um lugar que costumo freqüentar só no Carnaval para experimentar a incomparável sensação de passar da concentração da escola onde saio para o desfile em si –, pouco depois das 22h, ao ouvir nos auto-falantes lá longe um reggae indistinto, sabia que aquela não era “minha” banda. Eu havia chegado no intervalo. E que não era entre Los Hermanos (que lamentavelmente perdi) e Kraftwerk (que adoraria ter visto mais uma vez), mas entre Kraftwerk e Radiohead. Alguma coisa estava para acontecer, porém…

Só porque você a sente, não significa que ela está ali. Será mesmo que eles, os caras do Radiohead iriam entrar dali a alguns minutos naquele palco? Obviamente, meu nível de expectativa estava nas alturas. Os amigos que encontrava pelo Sambódromo já estavam em diferentes níveis de, digamos, excitação – e eu tentava decidir em qual deles me encaixar. Antes que eu fizesse essa escolha, porém, como que trapaceado pelo meu relógio que esqueci de consultar, as luzes se apagam e em questão de segundos reconheço “15 step”. “Achtung baby!” – o show já é.
Eu costumava pensar que não existia futuro algum. Pelo menos não nos shows ao vivo. Meus leitores mais dedicados sabem – e quem já leu meu livro “De a-ha a U2” também – que eu tenho um “problema” com bandas se apresentando ao vivo. Essa é uma questão muito longa que não vale a pena discutir (novamente) hoje por aqui, mas basta dizer que eu sempre preferi a música gravada à interpretada no palco. No entanto, mesmo antes de “15 step” acabar, quando os primeiros acordes letais de “Airbag” ainda eram uma possibilidade, eu saquei que ali poderia voltar a sentir o mesmo entusiasmo por esse tipo de performance que vivi quando vi Kurt Cobain, no saudoso Hollywood Rock, cuspir nas lentes das câmeras que transmitiam o show do Nirvana ao vivo. Radiohead estava se apresentando – e, em questão de minutos, tinha tomado completamente o poder naquela noite: todos ali estavam irremediavelmente sob seu comando.

Por um minuto ali, eu me perdi. Estava tão atordoado de estar finalmente assistindo a um show do Radiohead que, a exemplo do fora que tomei de Michael Stipe (R.E.M.) quando me vi entrevistado esse grande ídolo pela primeira vez (ele, percebendo que eu estava à beira da tietagem, encerrou a entrevista na mesma hora – mais uma história do meu livro de encontros com os grandes nomes do pop), dei uma “descolada” de mim mesmo. Foi como se eu tivesse saído do meu corpo e tivesse tido assim a chance de ver eu mesmo vendo uma banda adorada tocar – e, pior (ou melhor?): como se eu não estivesse acreditando no que estava vendo. “There there”, “All I need”, “Karma Police”, “Nude”, “Weird fishes/Arpeggi” – o que estava acontecendo? Eu tinha a ilusão que eles estavam tocando todas as músicas que eu havia pedido. Será que Thom Yorke recebeu meu email? O bilhete que deixei na portaria do hotel?
Suas orelhas deveriam estar queimando. Não havia passado ainda nem uma hora de show, e você tinha a impressão de que já tinha ouvido todos os sons do universo. Mas aí, depois de “The national anthem” e “The gloaming” – ambas devastadoras – veio “Faust arp”. E tudo começou a desmoronar. Para cima. Na sua intrincada simplicidade, nos seus frágeis dois minutos e pouco, a música era o respiro necessário para fãs que, como eu, precisavam se conectar novamente com seus sentidos. Aos poucos, enquanto nossos pés se aproximavam novamente do chão, a serenidade ia voltando ao Sambódromo, e o único desejo desse humilde servo era que toda a experiência de até então, como diz a própria música, duplicasse e triplicasse. Um momento de paz, enfim – era o que eu pensava. Mas aí veio “No surprises”…

Eu estou surpreso que sobrevivi. Os cilindros iluminados, que definiam brilhantemente o espaço de apresentação da banda com cores, desenhos e movimentos coreografados, agora pintava uma forma geométrica estática, que lembrava uma igreja – mas nós ali na platéia sabíamos que não estávamos diante de nenhum templo, mas do próprio céu. O impacto dessa dobradinha (“Faust arp/No surprises”) certamente vai ter conseqüências para o resto da minha vida. Mas enquanto estava ali, assistindo tudo, sem tempo nem sobriedade para codificar o que se passava, quem disse que eu conseguia elaborar sobre isso? “Jigsaw falling into place” não me ajudou em nada a recobrar a consciência – e foi só no pequeno hiato entre essa música e a introdução da seguinte (que eu custava a reconhecer), que reencontrei algum equilíbrio. Foi então que ouvi Thom Yorke murmurar “who’s in the bunker?” – e tudo ficou novamente fora de controle.
Aqui eu podia tudo o tempo todo. E esse estranho sentimento não era só meu. Muitas pessoas em volta de mim que demoraram ainda mais que eu para reconhecer “Idioteque” (uma das cinco melhores faixas que o Radiohead já compôs, na minha opinião) já dançavam involuntariamente – como que tomados pelo transe de uma pista de dança surrada às 4h30 da manhã. Mas ainda era por volta de meia-noite (se é que eu podia confiar nos relógios à minha volta) e eu não sabia mais explicar nada. “I might be wrong”, “Street spirit (fade out)”, “Bodysnatchers” e “How to disappear completely” encerraram o que era – um pouco obviamente demais – um “boa noite” de mentira.

Você vai para o inferno pelo que sua mente suja está pensando. Mas mesmo assim, você (e todo mundo) não sai do lugar desejando que o Radiohead voltasse logo e tocasse aquelas músicas que você passava incessantemente pela cabeça – as que você não tinha ouvido ainda. E poucos minutos depois, como que para recompensar esse seu esforço mnemônico, eles entram como uma seqüência inacreditável: “Videotape” (a segunda melhor faixa de “In rainbows”, depois de “Faust arp”), “Paranoid android” (!!!), “House of cards” (com o mantra “I don’t want to be your friend, I just want to be your lover”), “Just” (das antigas!), e, claro, “Everything in its right place”. Achei que tinha terminado. Fui deixando a praça da Apoteose vagarosamente, ainda com os ecos da introdução inesquecível da faixa de abertura de “Kid A”, quando, da maneira mais discreta possível, Yorke volta ao palco para cantar “You and whose army?” – discrição, no caso, marcada pela imagem do rosto multiforme do cantor cantando bem próximo a uma das câmeras do palco, enquanto também trabalhava o teclado. “Reckoner” veio em seguida – e, embora impecável, parecia uma canção improvável para fechar uma apresentação desse porte. Eles tinham que cantar mais uma… talvez “aquela”? Meu palpite era de que eles viriam com “Fake plastic trees” – que embora não fosse das mais animadas do cânone “radioheadiano”, fecharia o “set” como um clássico indiscutível. Mas aí veio “Creep”.

A poeira e a gritaria. Era só isso que eu via quando, com as luzes todas do palco no talo – e ajustadas para emitir um branco intenso –, vinha aquele refrão surreal, o maior hino (ao lado de “Loser”, de Beck) ao fracasso da adolescência que não acaba nunca. De vez em quando um flash multicolorido quebrava aquela claridade, surpreendendo os olhos que achavam que já tinham registrado todas as variações possíveis dos criativos enquadramentos dos próprios membros da banda pelo palco, projetados nos telões eletrônicos. “What the hell I’m doing here?” – quisera eu saber…

Sem alarmes e sem surpresas. Isso que acabei de relatar aqui – uma descrição aproximada da experiência de assistir ao primeiro show do Radiohead no Brasil –, por mais arrebatador que possa parecer, era exatamente o que eu esperava. Aliás, foi mais: eu esperava tudo – e veio “tudão”. Lá dos idos de 1993 – quando eu, por acaso, capturei a banda na primeira entrevista para a televisão da carreira deles (sim, outra história contada em “De a-ha a U2”) – até a primeira audição (e todas as outras que vieram) de “In rainbows”, eu já contava com isso. A surpresa maior seria se eles não cumprissem essa promessa. Mas eles não fariam isso comigo – nem com ninguém. E é por isso que prestei uma pequena homenagem à banda neste texto que, muito provavelmente, eles nunca vão ter a chance de ler. Que homenagem? Você me acompanhou até aqui e ainda não percebeu? Tem certeza de que é um fã do Radiohead? Se você descobriu a “charada”, seu comentário com a resposta será tão bem-vindo quanto outras opiniões sobre o show (a sede de saber o que as outras pessoas acharam desse evento é insaciável – passei o fim de semana discutindo esse assunto, e ainda quero mais!). Se não sacou ainda, na quinta eu desvendo o mistério. Quer uma pista para ajudar? O segredo está sempre no começo de tudo…

ZECA CAMARGO

NO BLOG G1

22 DE MARÇO DE 2009, CHÁCARA DO JOCKEY, SÃO PAULO

 

Depois de uma estréia histórica no Rio de Janeiro, a banda rumou para São Paulo e lá mudou o repertório, surpreendeu ainda mais quem já havia visto a banda no Rio ou fora do Brasil e não fez concessões comuns a bandas que se apresentam por aqui (camisa da seleção brasileira, bandeiras nos amplificadores, etc). Não deixou espaço para mais nada além de seu espetáculo.

E que espetáculo! Talvez seja um pouco cedo para definir como histórico o último fim de semana, mas ao mesmo tempo não dá pra escapar do clichê. O showbiz brasileiro já pode se dividir entre antes e depois da visita do Radiohead ao país (esperamos que seja a primeira de muitas). Perto deles, quase todos os outros shows viram brincadeira de criança e alguns soam até mesmo amadores (inclusive os dois que abriram o tal "Just a Fest": Los Hermanos e Kraftwerk). O leitor pode achar que este escriba está exagerando. Sou obrigado a me defender colocando na roda a pesquisa informal que fiz pela Chácara do Jockey.

O Instituto Datajames perguntou a alguns presentes o que haviam achado do show. As respostas não foram iguais, mas todas rumavam para a mesma direção: "histórico", "melhor show da minha vida", "incrível", "inacreditável". Não houve quem não gostasse. Zero porcento. O Radiohead conseguiu 100% de aprovação e não é difícil entender o porquê. Banda amada pelos indies, prometia uma visita ao país há mais de dez anos. Possui um séquito de fãs fiéis e influenciou gerações e gerações de músicos e amantes da boa música. Ainda assim você pode afirmar que isso tudo é exagero. Bem, então você não viu o show.

No palco, o Radiohead é ainda melhor. Cenário, iluminação, performance cênica e musical, setlist, tudo funciona! E tudo é perfeito. Por vezes chega a ser inacreditável que aquele som é produzido por apenas cinco pessoas. A diferença está exatamente na competência. Enquanto a elegância de Ed O Brien e a postura guitar hero de Jonny Greenwood constroem camadas e camadas de guitarras e climas, a cozinha absurda de Colin Greenwood e Phil Selway parece ser discreta e não se sobressai. Apenas parece. E Thom Yorke? O "ratinho" mais famoso da música mundial canta como poucos, é carismático, capaz de deixar a multidão sem fôlego, mas ao mesmo tempo é tímido de dar dó. Um contrasenso? Sim, mas o que seria da banda sem este delicioso contrasenso?

o que dizer do setlist do show? Diferente em uns 60% do show do Rio, a banda mostrou uma faceta um pouco mais indie, ao tirar da cartola pérolas como "Optimistic" e "Pyramid Song", mas sem se esquecer dos hits. Difícil mesmo é apontar destaques, mas talvez a comunhão público-banda na dobradinha "Paranoid Android/Fake Plastic Trees" e a versão de tirar o fôlego de "Exit Music (For a Film)" tenham sido os destaques.

Sim, teve "Creep" e um final apoteótico. Teve também todo o álbum "In Rainbows" e mais pérolas ("Climbing Up The Walls", "You and Whose Army"). E teve também uma mensagem de uma amiga hoje de manhã, que eu vou reproduzir na íntegra:

"James, to totalmente sequelada do show. Acordei hj e fui direto comprar um violão. Mais uma cantora de chuveiro que renasce das cinzas"

É este tipo de reação que um show do Radiohead causa nas pessoas. Ninguém fica indiferente. Em inglês, existe a expressão "of a lifetime". A tradução semi-literal seria "show para uma vida".

E foi mesmo.

Resenha por: Rodrigo James

Site> programaaltofalante

Radiohead para fãs – espera recompensada

 

Se você está lendo esta resenha, é o tipo de pessoa que, de algum modo, vai saber responder à pergunta: “onde você estava quando o Radiohead tocou no Brasil?”. As respostas podem ser inúmeras: “Viajei de Recife para ver os dois shows”, “só fui no Rio”, “vi pela TV”, “fiquei do lado de fora negociando com cambistas”, “eu trabalhei”, “fiquei com raiva do preço (ou do tamanho do público, ou da distância do local do show) e resolvi passar o domingo em casa”.

Provavelmente deve ter alguma história sobre como conheceu a banda: comprou o CD importado do álbum “The bends” ou a edição nacional de “Ok computer” após ler alguma resenha, baixou por curiosidade o primeiro pirata de “Kid a”, ou fez download gratuito (e legal) de “In rainbows”. E deve ter aguardado ansiosamente, desde então, o dia em que a banda tocaria ao vivo no Brasil.

Mas como diria o quinteto inglês em uma de suas próprias canções, “true love waits” (“o amor verdadeiro espera”). E o Radiohead se esforçou em cada momento de seu show para fazer a espera valer. Começando pelo repertório: no primeiro bis, o set list inicialmente incluía “Wolf at the door”, mas a música foi trocada para “Fake Plastic trees”, um dos maiores hits do grupo no país.

Foi uma apresentação para fãs fiéis, daqueles que conhecem todas as músicas de “In rainbows” (o álbum de 2007 foi tocado na íntegra) ou a letra do lado b “Talk show host”, da trilha sonora do filme “Romeo + Juliet”. Em retorno, a banda sorria, pulava, dançava, olhava feliz e perplexa (como deve fazer noite após noite) para a plateia.

O Radiohead não é uma banda comum, e eles demonstram isso até na hora de fazer o público participar do show. Além das tradicionais palminhas e mãos para cima, a banda grava a própria plateia cantando e depois toca a gravação de volta, gerando momentos emocionantes como em “Karma police” e especialmente “Paranoid android”, quando a música virou um dueto entre o público e o vocalista Thom Yorke.

Arriscando uns “obrigado” e “boa noitchi”, Yorke foi o mestre de cerimônias tímido que o som do Radiohead promete e precisa. Sorri, canta de olhos fechados, faz gestos para o público, dança desajeitadamente, fala pouco. Em um dos momentos mais estranhos e intensos do show, para em frente da câmera (uma das inúmeras espalhadas pelo palco, mistos de webcam com vídeo de segurança) instalada no piano, olhando fixamente enquanto canta “You and whose army” – vai se aproximando, e a lente parece que vai perfurar seu olho.

Desde “Kid a”, o Radiohead vem ensinando como se fazer rock sem usar guitarras – isso faz com que Ed O’Brian e Jonny Greenwood transformem-se em muilti-instrumentistas, tocando percussão, teclados, samplers e o que mais vier pela frente. Por outro lado, exploram o potencial das próprias guitarras – assim como Jimmy Page do Led Zeppelin, Greenwood chega a usar um arco de violino para tocar “Pyramid song”.

Além do telão mostrando as imagens das câmeras fixas apontadas para a banda, o palco também é adornado por uma série de colunas luminosas, que vão mudando de cor a cada nova música.

Mas o principal personagem do show foi o próprio público, reagindo entusiasmado o tempo todo a um som nem sempre convidativo ou “fácil”, pulando, acendendo isqueiros, pedindo músicas, dizendo que “o mundo pode acabar agora”, chorando, ficando no mais absoluto silêncio. Foi para aquelas duas horas e vinte minutos de show que cada uma das trinta mil pessoas esperaram por muito tempo (uns doze anos, outros nove, outros dois). E o pacto informal entre banda e plateia foi cumprido à risca: todos ali fizeram valer a pena, até o fim.

Resenha Por Amauri Stamboroski Jr.

para o portal G1

RADIOHEAD: SHOW DA DÉCADA

 

Difícil escolher por onde começar ao falar sobre o show do Radiohead, no último domingo, na Chácara do Jockey, em São Paulo. A esta altura, o caro leitor já deve ter lido de tudo na extensa cobertura feita pela internet – até mesmo boas gravações piratas já podem ser baixadas na rede. Mas há coisas que merecem a tinta do papel para a posteridade, e a noite de domingo é uma delas. Se o Radiohead mudou os rumos da música pop com o disco Ok Computer (1997), podemos dizer que a turnê atual, do disco In Rainbows, é a continuação desta revolução nos palcos.

O Brasil recebeu o show de rock da década. Que me perdoe o U2 e sua pirotecnia, mas a banda de Thom Yorke mostrou que não são grandes telões que fazem o rock virar arte. A escolha do set list, completamente intuitiva – as músicas de São Paulo foram diferentes das do Rio, sem prejuízo para nenhum dos lados –, demonstra a diferenciada relação que o grupo mantém com sua música. “Vamos com o que estamos sentindo”, definiu Thom Yorke em entrevista a Edgar Piccoli, antes do show. Enquanto o pessoal do Rio conferiu Street Spirit, No Surprises e Just, o de São Paulo ganhou Exit Music, Lucky e Fake Plastic Trees. Quantas bandas no mundo podem se dar ao luxo de fazer dois set lists perfeitos e diferentes em uma mesma turnê?

A infraestrutura do palco fica na medida certa entre o espetacular e o econômico: várias câmeras – pelo menos três delas sobre Yorke – garantem uma edição instantânea e frenética nos telões. A fantástica iluminação, assinada por Andy Watson, que trabalha com a banda desde 1993, é ecologicamente correta, consumindo apenas 30% da energia de luzes convencionais. O resultado é exagerado – no bom sentido. As lâmpadas finas e compridas garantem luzes que parecem dançar com as músicas. Mas nenhum desses detalhes supera a essência do que foi o show: uma banda no seu auge do ponto de vista artístico – coisa rara de aparecer por aqui – e em completa sintonia com o público.

Dois momentos resumem bem a atmosfera de êxtase que envolveu a Chácara do Jockey. Em Exit Music, o silêncio entre as 30 mil pessoas era inacreditável – nada além da voz e do violão de Thom Yorke podiam ser ouvidos. Em Paranoid Android, a música já havia sido encerrada quando a multidão entoou novamente, sozinha, os versos “rain down, camon rain down”, obrigando a banda a retomar alguns acordes e acompanhar o público. Até mesmo quem já havia assistido ao mesmo show fora do país (meu caso e de outros jornalistas com quem conversei) não tem dúvida em dizer que o de São Paulo foi superior e único. Os descontos: a desnecessária e desentusiasmada reunião do Los Hermanos – que teve um inevitável cheiro de caça-níquel – e a péssima infraestrutura do festival. Nada que vá impedir este show de ser lembrado como o grande show de rock dos anos 2000 – o show de uma geração inteira.

*** Texto publicado no Segundo Caderno da Zero Hora.

AGORA É OFICIAL

 

Agora é oficial. O século 21, musicalmente, começou e quem veio pra mostrar e comprovar foi uma banda inglesa, de Oxford, a melhor banda de rock do mundo, também conhecida como Radiohead
Um outro inglês, Eric Hobsbawn, já tinha nos informado que o século 20 foi meio preguiçoso e só resolveu começar já entrado na adolescência, em 1914, com a Primeira Guerra Mundial. Apesar de meio temporão, o século 20 também foi um apressado, e resolveu se terminar todo bem antes da hora marcada, lá por 1989, com o final do império soviético.


Já são vinte anos e a gente aqui, batendo o pezinho e perguntando a nós mesmos qual o sinal ou sinais de que o novo século 21 começou e quando. Eu, pelo menos, entendi a mensagem no último domingo, quando o messias apareceu na forma do Thom Yorke, um vocalista desse tamanhinho e muito atormentado, que cantou os novos tempos e nós, mais de trinta mil seguidores, fomos junto. Que momento, minha gente! Até esse insensível aqui se emocionou e isso não acontecia desde, quando mesmo?
Porque eu não vou a shows. Já que somos íntimos, meus milhares de leitores e eu, posso confessar vários dos meus muitos pecados, em especial os piores. Não gosto de brócolis, não gosto de teatro, ou ao menos de atores vivos na minha frente, e não vou a shows por motivos parecidos.
Adoro música, como todos os leitores e o senhor aqui ao lado. Mas não sinto um interesse especial por músicos, que falam uma língua que eu entendo quando escuto a musica que fazem, e várias linguas que eu não entendo se estamos no mesmo bar.


Não só por isso. Shows, concertos de rock em espaços grandes, fazem parte da minha visãozinha do inferno, que inclui encontros evangélicos, festivais de axé e festa do peão boiadeiro. Pagar muito dinheiro, achar uma forma de transporte que nos leve e traga, enfrentar o calor, ou a chuva, ou ambos e, muito pior, os banheiros químicos, para finalmente ver lá longe em um palco um grupo de músicos que eu escutaria melhor em casa, simplesmente não faz sentido pra esse neto inconformado da minha avó Jovita.
E tudo isso eu enfrentei nesse ultimo domingo.
Já comecei treinando no sábado, rompendo com a minha norma de não ir ao teatro ou a shows e indo ver uma algo que era ambos, o confuso espetáculo Homemusica do Michel Melamed. Devidamente aquecido, lá fui eu Francisco Morato abaixo, até a distante Chácara do Jockey, um lugar que reúne todos os ingredientes que listei acima e ainda um suave cheiro de estábulo, uma beleza.


E não foi apenas isso: para finalmente poder ver em ação a melhor banda de rock do mundo, eu precisei ver a pior, enfrentando a indigência musical da Los Hermanos. Uma banda carioca chamada Los Hermanos deveria se limitar a churrascarias, e essa resolveu ganhar o mundo. Azar nosso. O oposto de amor não é o ódio, mas a indiferença. O oposto de boa música não é música ruim, mas musica que não faz diferença.
Portanto, prezados leitores, tudo que eu odeio em shows de rock se fez presente nesse show e o sofrimento foi, sim, enorme. Eu me senti como um peregrino se dispondo a fazer o Caminho de Santiago, pagando pelos pecados e por não gostar de brócolis, esperando apenas que tudo isso me trouxesse, ao final, uma visão do Senhor e um tubo de Cataflan em spray.

A visão eu tive. A visão deslumbrante de um espetáculo de grande música, de um tipo incomum e que melhor se constrói ao vivo, em um grande espaço, diante de uma multidão a ser convertida, na melhor síntese do que possa ser um espetáculo de rock nesses tempos e do que ele pode proporcionar, quando se dispõe a isso.


A nossa época, no que ela tem de civilizado, oferece dois momentos para o encontro de grandes números de pessoas. Jogos de futebol e concertos de música. Os jogos substituem as batalhas e os concertos substituem as igrejas, acho, talvez essa seja a razão para a força de uma banda messiânica, como U2, ou pseudo-satânicas, como Rolling Stones e toda aquela cambada do metal. Nesses encontros, a música cede lugar para um sentimento místico e estar presente é mais importante do que ouvir, mais ou menos como uma missa, nos velhos tempos. Nesse sentido, iluminação, efeitos especiais, telões, todos compõe essa construção do ambiente de templo. Isso se fez particularmente presente no palco da Radiohead, mas deixou de ser um problema segundos após a abertura do concerto, quando tudo aquilo fez absoluto sentido, essa sendo a maior diferença entre decoração e arquitetura. O que a Radiohead fez foi construir o seu templo e oferecer o seu ritual, a todos, até mesmo aos fans do Los Hermanos, que devem estar sofrendo as sequelas psicológicas até agora.
E o ritual da Radiohead era centrado no ouvir! O que seduzia era a música e não a iluminação ou os fogos de artifício. Os telões mostravam não os músicos, mas a manufatura da música, ali, sendo construída diante dos nossos olhos e ouvidos e esse discurso fundamental mostra porque Radiohead é a banda que é, tão superior, musical e conceitualmente a tudo isso que está aí.


Desde a abertura, com 15 Steps, até o final, com a tradicional Creep, tudo que a banda fez foi apresentar o seu som único e manter uma multidão presa a ele. Não importava se a música era conhecida, se tinha feito sucesso nas rádios ou na web, não importava a complexidade e relativa atonalidade de algumas construções, contra tudo, contra o século 20 e suas promessas de facilidades das ultimas décadas, a Radiohead manteve todo mundo atento, comendo o que era oferecido em um banquete ritual dos mais raros, talvez o único que eu tenha presenciado, salvo um comício com o Lula dos velhos tempos.


talvez por isso eu tenha sentido o século 21 entrando por ali, por alguma fresta. Aquela música representa ao mesmo tempo a continuidade do rock - em sua capacidade única de traduzir essa época de transformações intensas, o seu presente constante e aceleração rumo a um futuro mais e mais imprevisível -, com a era pós-industrial, centrada na multiplicidade, onde o diverso e o fragmental são áreas escassamente separadas. A musica do Radiohead nega a fragmentação, afirma a complexidade e aponta o caminho da salvação, a capacidade que precisamos desenvolver de nos sustentarmos na multiplicidade, e não na unicidade, dos discursos. A música que a Radiohead nos apresentou é a alternativa mais elaborada, porque compreendida por todos, para o fundamentalismo, e nosso século implorava por algo assim, para finalmente poder começar.


Resenha por: Marcelo Carneiro da Cunha
site> terra magazine.

O DIA QUE NÃO TERMINOU

 

Às dez e pouco do último domingo começaram os gritos e ruídos que anunciavam a entrada do Radiohead no palco da Chácara do Jóquei. A noite estava clara, a temperatura amena e a anunciada chuva não veio. Ao meu redor, todos estavam na ponta dos pés, de pescoços erguidos, como se assim ficassem mais próximos do palco. Os britânicos entraram em cena e começaram o show com 15 Step. Som perfeito, o público não se continha.

Por alguns instantes ouviu-se pouco a música que vinha do palco. Eu não sabia se me deixava levar pela canção ou se prestava atenção à apresentação - só depois de um tempo eu soube equilibrar as duas coisas. A primeira música indicou o que as 30 mil pessoas que lotavam o espaço poderiam esperar das próximas duas horas. Na sequência, vieram There there, do Hail to Thief e National Anthem, do Kid A, disco que deu início à fase mais experimental do grupo.

No palco, via-se um equilíbrio entre feeling e profissionalismo. Thom Yorke parece sentir profundamente cada palavra e acorde que toca. Johnny Greenwood cuida feito louco para que saia tudo bem com os apetrechos eletrônicos que acompanham a banda desde Kid A. Durante o show, os telões trouxeram imagens dos cinco músicos em enquadramentos inusitados.

Apesar de os trintões de Oxford não terem dito mais que uns poucos "obrigados" entre as músicas, a comunicação com o público não poderia ter sido melhor. O auge foi ao fim de Paranaiod Andriod, um dos hits da noite. A música terminou, mas a galera não parou de fazer o backing vocal. Com o violão em mãos, Yorke entrou no clima e, em coro com a platéia, continuou a primeira voz, estendendo o final da canção. Isso foi no primeiro bis. A banda ainda voltaria ao palco outras duas vezes.

Dramas contemporâneos

O set list da noite teve por base o último disco, In Rainbows, que foi disponibilizado para download pela própria banda. A apresentação deixou claro porquê o Radiohead é um dos nomes mais importantes do pop contemporâneo. Os ingleses estão antenados com o que se passa em seu tempo. Em todos os sentidos. Tanto no que diz respeito às tendências musicais quanto à compreensão dos dramas do século 21. As críticas acerca do show foram unânimes em dizer que a noite foi histórica.

As coisas, no entanto, ainda me são um pouco nebulosas, confusas. É como se o último domingo ainda não tivesse terminado. A distorção pesada antes do refrão de Creep, que encerrou o espetáculo, ainda paira na memória. Junto a ela, o monte de copos plásticos espalhados pelo local após a apresentação e o estacionamento surreal, que trazia à tona a realidade de São Paulo. O evento refletiu bem as contradições da vida contemporânea nas grandes cidades, regada a desigualdades, congestionamentos, gás carbônico e consciência ambiental. A noite não poderia ter sido mais Radiohead.

Resenha por: Diego Dacax

RADIOHEAD EM SÃO PAULO

 

Assim que ouvi Ok computer pela primeira vez, acredito que por volta de agosto de 1997, tomei um susto tão grande que decidi dividir a experiência com meu padrasto. Fã de Kraftwerk e de Pink Floyd (cresci ouvindo sinos em volume máximo), provavelmente ele entenderia aquilo tudo melhor que eu. Lembro até hoje a reação desejeitada daquele homem grisalho, já turrão e (às vezes terrivelmente) cético: depois de um longo período de silêncio, o Mr. Sisudez se deu por satisfeito lá pela quinta ou sexta faixa. “É impressionante”, ele observou, quase cientificamente. “Se eu tivesse a sua idade, ouviria sem cansar.”


Ficamos nisso. Acredito que, depois daquela impressão animadora, meu padrasto nunca voltou a um disco do Radiohead. Como se, incapaz de acompanhar o galope de uma geração por ele desconhecida, preferisse manter distância das estranhas (e talvez maravilhosas) novidades cultuadas por meninos de 14 anos de idade. Como se dissesse: “ok, Tiago, agora você sabe o que sinto quando ouço The dark side of the moon.”
Duvido que me padrasto tenha assistido aos trechos do show de sábado em São Paulo, exibido na tevê por assinatura. Não o interessa. Posso dizer sem margem de erro: foi retrato de uma geração. A minha geração.
Provavelmente ele teria gostado do que vi (que, para mim, não vale menos que 10/10). A sensibilidade musical do meu padrasto, apesar de excessivamente seletiva (cinco ou seis bandas são o suficiente para mapear toda uma existência), foi moldada por um rock inventivo e atmosférico, ambicioso e monumental. Anos antes de Ok computer, mostrei a ele Nevermind e tudo o que recebi em troco foi um “tsc, o ser humano é um projeto que não deu certo”.


O show do Radiohead é ambicioso e monumental como eram os álbuns de rock progressivo dos anos 70. Mas também é catártico, emotivo e atormentado como o pós-punk do final daquela década. Há como identificar essa mão-dupla de referências em cada um dos álbuns da banda. Em Ok computer. Em Kid A (ainda que rarefeita). Em In rainbows (ainda que coberta por um bafo quente de soul music). Mas, no palco, essa equação se faz visível, reluzente, pulsando diante dos nossos olhos (deslumbrados, talvez cansados, talvez incomodados ou frustrados, mas hipnotizados).
É nosso reflexo. A imagem de quem viveu os anos 90 e seguiu se transformando até chegar aqui, no final da primeira década do século 21. Radiohead é, de certa forma, nossa história (minha e dos outros que o adotaram como trilha sonora para a adolescência). E, de outra forma, a história muito precisa de um período de transformações fundamentais para a música pop. Intencionalmente ou não, os ingleses refletiram o furor grunge (no hit Creep), a desilusão do fim de século (em Ok computer) e a fragmentação do pop via web (Kid A foi o primeiro grande filho do Napster) até antecipar a morte da indústria fonográfica (em In rainbows, distribuído de graça, independente de verdade).


A discografia do Radiohead pode sim ser encarada como um tratado para um mundo em transe. Você ouve Ok computer, por exemplo, e entende a crise econômica. Sério. No palco, a banda tenta resumir essa ópera sem soar didática ou acomodada (a liberdade de criação é a bandeira que eles continuam levantando). Trata-se de um desafio e tanto. Dois dias antes, assisti a um show do Iron Maiden e tudo o que os velhos metaleiros conseguem (dignamente, para os padrões do metal; nada contra) é enfileirar canções conhecidas da forma mais plana possível, com um ou outro cenário engraçadinho - o que 90% das bandas praticam desde os anos 60. O show do Radiohead vai bastante além desse formato-padrão. É um espetáculo mais intrincado.


Assisti ao show com uma amiga que não conhecia nada além de In rainbows. No final da apresentação, virei-me para ela e disse: “Você acabou de ouvir tudo o que precisa saber sobre a banda. Isto é Radiohead.” Pouco depois, ouvi reclamações de fãs que queriam ter cantarolado hits de The bends. Mas faria algum sentido? A jornada do Radiohead não tem volta. Entendi muito bem que Creep, escondida lá no terceiro bis, era uma faixa bônus que, apesar de agradar aos fãs (e foi uma apoteose), destoa bastante da fase em que a banda se encontra.


A banda se jogou tão decididamente na própria aventura que muitos dos fãs ficaram pelo caminho. Natural. Conheço que deteste Kid A. Também sei dos que desprezam hits como High and dry. O show abraçou essas duas facetas, mas resgatadas a partir dos climas quase transcendentais de In rainbows (a iluminação é, por si só, obra-prima: engolida por tubos de luz, a banda toca literalmente dentro de um arco-íris). Uma banda na trilha do sublime.
Mais que isso: uma banda madura. Quem dera se toda maturidade soasse assim. O rigor técnico aliado à interpretação emotiva, a pompa de superprodução afinada à elegância do conceito (até as cores do telão, em meios-tons, impressionavam pelo detalhismo, pela finesse). Os sets que mudam a cada concerto, mas são sempre executados de forma impecável. Improvisos calculados, mas que soam vivos, doídos, frágeis. Thom Yorke é o Kurt Cobain que cresceu, entendeu os mecanismos da música pop e venceu o monstro sem desligar-se da angústia (e viver neste mundo continua difícil, com ou sem maturidade). Hoje, não há band leader que o supere.


O show de São Paulo oscilou do folk mais cru (a emocionante Faust arp, com dois violões e ponto final) à eletrônica mais cerebral (a geleira chamada Idioteque) - e cobriu uma série de etapas intermediárias entre um extremo e outro. As canções menos virulentas acabaram se destacando - com momentos arrasadores como Karma police, Fake plastic trees, Exit music (for a film) e Pyramid song -, interrompidas vez ou outra por espasmos de ruído (Bodysnatchers, The national anthem). Síntese do show e da carreira da banda, Paranoid android foi reconstituída com fidelidade absoluta - e agarrada pelo público, que fez coro, prolongou os versos, não quis soltar. Sete minutos que passaram como sete segundos.


No total, ficamos perplexos por cerca de 2h20. Pareceu pouco. Eu ficaria ali, de pé, apertado pela multidão, talvez de cabeça para baixo, por mais quatro horas (ouvir Lucky e Climbing up the walls assim, no susto, é de provocar parada respiratória). O golpe de misericórdia veio no final do segundo bis, com uma versão acelerada para Everything in its right place: as luzes vomitavam os versos da canção mais surrealista da banda, enquanto Thom Yorke ia desaparecendo lentamente.


Sabemos tudo o que precisamos saber sobre o Radiohead. O resto é mistério.

Resenha por: Tiago Superoito
site> superoito

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